Poesias

terça-feira, 18 de agosto de 2020

COISAS DO BRASIL PARTE 4 – REGIÃO SUDESTE - CAPÍTULO 20

Por fim, Felipe escreveu a respeito da ‘Lenda do Boi de Concha’: 
Filho do Boi Marujo com a Vaca Sereia; nascera no dia 29 de junho, dia de São Pedro Pescador. 
Ao ver Cipriano, o bichinho deu um mugido parecendo som de ratambufe. 
-- Ratambufe*! 
-- Isso mesmo, você vai se chamar Ratambufe! 
Esse mugido tá parecendo o ratambufe do Domingos Anagro, batendo em dia de carnaval. 
Você é forte, bonito e tem jeito de ser um bom carreador! 
Você nasceu no dia de São Pedro Pescador, não é? 
Vou leva-lo para conhecer o mar! 
Você vai ver que beleza que é o mar! 
Está ouvindo Ratambufe? 
O recém nascido bezerro, parecendo que entendia, fitava a promessa do velho Cipriano. 
Ratambufe era um boizinho quase que inteiramente branco, apenas o rabo era preto, e destacava-se uma mancha preta na testa com formato de concha.
Cipriano era um tropeiro do Bairro Alto de São Luiz do Paraitinga que comercializava em Ubatuba. Descia e subia a serra semanalmente, trazendo produtos como: queijo, farinha de milho, carne seca, carne de porco e também comercializava animais como cavalo, boi, galinha, pato, cabrito e porco. 
Dos produtos que levava, era a farinha de mandioca, banana e principalmente o peixe seco. 
Ratambufe foi crescendo e ouvindo as promessas de seu dono que iria lhe mostrar o mar. 
O que seria o mar? 
O que seria as gaivotas, as conchas, os peixes, os guaroçás,... que Cipriano sempre falava? 
Ratambufe cresceu ouvindo falar do mar e das coisas do mar... 
Para Ratambufe o mar seria o céu, o paraíso. 
Dois anos se passaram e era o mais lindo animal de Cipriano. 
Era um boi forte, robusto, inteligente e o que mais importava era seu peso. 
Cipriano, como bom comerciante que era, tinha na verdade outras intenções; desceria a serra com o boi, indo diretamente para o matadouro, venderia sua carne e ganharia um bom dinheiro. 
O matadouro ficava no final da Rua Coronel Ernesto de Oliveira e final também da Rua Alfredo de Araújo; e no mais tardar o boi chegaria às nove horas da manhã. 
-- É amanhã, Ratambufe! Amanhã você vai conhecer o mar! 
Assim aconteceu. 
No mirante da serra, no descanso do Tuniquinho, pela primeira vez Ratambufe viu o mar. 
Lá de cima da serra avistou aquela imensidão de águas azuis. 
-- Tá vendo Ratambufe? Lá é o mar, lá estão os peixes, as conchas e as sereias, é lá que mora São Pedro pescador! – falava Cipriano ao seu animal. 
Ratambufe parecia entender, e completamente hipnotizado não tirava os olhos daquela imensidão de águas azuis, que brilhava com os raios do sol. 
-- Caaaalma Ratambufe, você vai ver o mar de perto! Caaaalma! – fez, Cipriano, mais essa promessa a seu boi. 
A descida da serra foi tranqüila, por entre grotas e cachoeiras, sob as sombras de manacás e brecuíbas, ao som de arapongas e tangarás... 
Coisas que Ratambufe, em seus dois anos de vida, nunca tinha apreciado. 
O animal parecia ansioso e fazia a tropa acelerar os passos. 
-- Caaaalma Ratambufe, está chegando, o Mar não vai fugir! – alertava Cipriano. 
Cipriano se arrependeu, e se arrependeu muito... 
-- Olha, Malvina! Eu vi, eu juro que vi! 

-- Você está ficando doido, Lindolfo! Você bebeu? Onde já se viu um boi sair de dentro do mar! 
-- Você sabe que eu não bebo, Malvina! Eu vi! Vi com esses olhos que a terra há de comer! Eu estava tocando minha viola em baixo da amendoeira do cruzeiro, quando apareceu aquele vulto branco vindo lá da prainha do Matarazzo. Eu pensava que era um barco, mas não era. O bicho veio ao som da minha viola, veio vindo, veio vindo e ficou diante de meus olhos, no lagamá. Eu vi! O bicho era todinho branco, todinho coberto com conchas, tinha uma mancha preta na testa e o rabo preto. Brilhava com a ardentia, parecia um ser encantado; vinha acompanhado por tudo que era peixe do mar, botos e cavalos marinhos! Foi a coisa mais bonita que eu já vi em toda minha vida, Malvina! 
-- Olha Lindolfo, você bebeu, ou a pimenta daquele pirão que você comeu de noite não lhe fez bem! Onde já se viu uma história dessas, homem?! Você esta ficando louco! 
Não tinha como fazer com que Vovó Malvina acreditasse naquela historia... 
E vovô continuava. 
– Olha Malvina! Coisa de um mês atrás, o compadre Zé Capão me veio com essa mesma história, de que viu sair do mar um boizinho coberto com conchas; não teve como eu acreditar, e ainda falei para o compadre que ele estava bêbado!!! Pois é Malvina, agora o bicho me apareceu! Acredite se você quiser! 
-- Não dá para acreditar, Lindolfo! Não dá!!! 
-- Puxe um pouco pela memória, Malvina! Você lembra daquele caso que aconteceu com o Cipriano? Você lembra daquele boi branco que ele trouxe do Bairro Alto, para matar no matadouro? Você lembra o que aconteceu com o boi? 
-- Ouvi dizer que o boi tomou a dianteira e foi para a praia, entrou no mar e morreu afogado! 
-- Foi justamente isso Malvina; ao chegar perto do mar o boi travou as pernas e ficou olhando para o horizonte do mar, de vez em quando balançava a cabeça, parecia que estava ouvindo um som, algum canto diferente, de repente, o boi caminhou e entrou no mar, e o que se sabe é que o bicho nunca mais apareceu. 
Não se sabe se morreu ou se viveu, pois nunca acharam uma parte sequer do bicho: nem couro, nem pêlo, nem chifre! 
Dizia o Cipriano que ele vivia falando para o boi da beleza que era o mar e de tudo que tinha no mar... Essa história de mar era papo de Cipriano... 
O boi sabia disso! 
Quando o bicho viu o mar e sentiu a maresia, ficou alucinado, deu uma loucura que o bicho desapareceu mar adentro; nunca mais apareceu. 
Pescadores do local falaram que foi um chamado de São Pedro, outros diziam que era o canto das Sereias. 
Foi São Pedro Pescador! 
Foi o canto das Sereias! 
Malvina agora mostrava interesse pelo fato e já fazia ligação das histórias. 
-- Será Lindolfo, que o boi que você viu aparecer, é o boi do Cipriano que sumiu no mar? 
-- Olha Malvina! Não só eu, mas também o compadre Zé Capão está achando! -
- É Lindolfo! Veio-me agora uma lembrança. Eu lembro-me muito bem que, quando você, juntamente com seu irmão e demais amigos, se reuniam na campina para fazerem suas serestas, nas noites de luar ou de garoa fina, os animais dos tropeiros (cavalos, bois, cabritos) que pastavam ao redor, vinham se aconchegar junto à cerca para ouvir as musicas tocadas pelos seresteiros, dando-lhes descanso e conforto. 
-- É Malvina, isso é fato comprovado!!!19 ...

19 Júlio César Mendes Julinho Mendes - 06/12/2001 – A Lenda do “Boi de Conchas” O BOI DE CONCHAS, foi uma aparição aos olhos de Zé Capão e de vovô Lindolfo. Para Zé Capão o boi aparecia em suas pescarias de robalos, na boca da barra do rio Grande, e, para vovô Lindolfo, o boi aparecia toda vez que ele dedilhava sua viola aos pés da amendoeira da praia do Cruzeiro. Fica aí registrado, a LENDA DO BOI DE CONCHAS, que vovô contava quando eu era criança; uma lenda que eu agora levo a público, e que fique fazendo parte das demais lendas da cultura da cidade de Ubatuba, que já não são levadas às crianças, e muito menos ensinados nas escolas. 

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 4 – REGIÃO SUDESTE - CAPÍTULO 19

Animado com as lendas da região, Felipe continuou a escrever. 
Só que desta vez a respeito da ‘Lenda da Sununga’: 
Graciosa jovem de tez suavemente morena, olhos cinza esverdeados, farta cabeleira negra e ondulada, porte esbelto e curvas caprichosamente delineadas, Marcelina, até então alegre, forte e viva, de repente pareceu aniquilar-se, alimentando-se mal, perdendo as cores, visivelmente tímida, quase sem ânimo para as tarefas costumeiras e, de modo sumamente estranho, muitas vezes permanecia acomodada até alto dia, necessitando que alguém fosse alertá-la para que deixasse o leito. 
Remédios já os havia tomado em grande quantidade, desde "vinho-composto" a chás de várias ervas, e até banhos de cozimento de folhas e flores já lhe haviam sido ministrados, mas nada resolvia. 
Sinhá Anália confidenciava seus temores às amigas mais íntimas, e estas procuravam afastar-lhe as preocupações: 
-- Ah, não é nada... é da idade... quantos anos ela tem? Quinze? Então tá aí, é da idade! 
Mas isso não tranqüilizava a apreensiva mãe que, interpelando a filha, revelando seus temores e fazendo indagações, recebia sempre respostas como esta: 
-- Que é isso, mãe? Estou boa, não sinto nada. A senhora está com medo só porque eu estou levantando um pouco mais tarde? Só porque ando com pouca fome? – e fingindo um sorriso. – Se eu comesse muito aí a senhora ia achar ruim, é ou não é? 
Dias se passaram, tristes e apreensivos, até que certa madrugada, ao raiar do dia, 
Sinhá Anália, que passava noites inteiras quase em vigília, ouvindo soluços provindos do quarto da filha para lá se dirigiu, encontrando-a abraçada ao travesseiro, abafando o pranto e murmurando palavras desconexas que pareciam ser: 
-- Não! Não vá... não quero... espere... 
A desolada mãe, atordoada com aquelas palavras sem sentido algum, não alertou a filha. 
Ao contrário, acomodou-se aos pés da cama e se pôs a rezar, pedindo a Deus que lhe desvendasse o mistério que aniquilava a filha. 
De repente Marcelina começou a mover-se. 
Mui lentamente levou as mãos aos olhos como que procurando dissipar uma lágrima e depois, vendo a mãe ali postada, com voz entrecortada começou a falar: 
-- Que é isso, mãe? A senhora está ai? Está chorando? Ah, me perdoe... Eu sei... Eu estou fazendo a senhora sofrer... Mas... Não chore... Não se desespere... Eu sei que a senhora quer saber tudo, não é? Então escute... Eu vou contar o que tá se passando comigo! 
A senhora sabe a estória daquele bicho, daquele dragão que mora na Toca da Sununga, não é? 
Sabe, sim, porque todo mundo sabe. 
Por que é que toda gente deixou de passar por lá? 
Porque basta alguém chegar lá perto para o mar ficar bravo, chegando a jogar as ondas até na boca da toca, arrastando tudo, seja lá o que for que estiver por perto! 
Pescador, esse então nem se fala, esse navega lá de longe, pra mais de duzentas braças da praia e ai dele se chegar mais pra perto! 
Somem ele, a canoa, os apetrechos, some tudo, como já tem acontecido, é ou não é? 
Todo mundo sabe disso, todo mundo fala, mas até hoje ninguém disse que viu o tal dragão. 
Isto é, ninguém disse, não, porque o ‘Seu’ Antero viu, viu e me contou. 
Ele me disse que numa noite tava chegando de viagem, e como era muito tarde pra chegar na casa dele, na Praia das Sete Fontes, resolveu cortar caminho. 
Então foi andando por cima do morro, por trás daquela bruta pedra da toca. 
Mas aí, quando foi chegando perto, ouviu um rugido tão grande que se arrepiou todo! 
Quis correr mas não pôde. 
Parecia que estava grudado no chão! 
Aí foi que ele viu o bicho que estava saindo da toca e andando pro lado dele! 
Era um bicho horroroso! 
De meio corpo pra cima era que nem aquele dragão que a gente vê nos quadros de São Jorge, onde o santo está fisgando ele com uma lança! 
O resto do corpo era que nem cobra, roliço, sem pernas, se arrastando no chão! 
Aí, a lua que tava clara, limpa, iluminando tudo, se escondeu por trás de uma nuvem deixando tudo escuro que nem breu! 
"Pronto, vou morrer!" – pensou ele. 
Fez o sinal da cruz, ajoelhou-se e começou a rezar o ‘Crendos Padre’. 
O bicho parou e foi se encolhendo devagarinho, devagarinho, que nem cobra quando vai dar o bote, mas não fez isso, não. 
Ao contrário, fez a volta e foi sumindo no meio das árvores, pros lados da toca. 
Aí ‘Seu’ Antero me disse que pôde se desgarrar do chão e deu pra correr até chegar em casa, mais morto do que vivo! 
Lembra-se, mãe, daquele dia que o ‘Seu’ Antero me levou até a Maranduba pra assistir o casamento da Justina? 
Pois foi naquele dia, no caminho – conversa vai, conversa vem –, que ele me contou essa estória do dragão da Sununga. 
Mas não sei, mãe, não sei porque aquele homem me contou isso. 
Não sei... 
Desde aquele dia nunca mais me esqueci do tal dragão, me parecendo estar vendo ele em toda parte, grande, gosmento, se arrastando no chão... 
Pra mim me parecia que ele tava na bica onde a gente lava roupa... no caminho que vai pra venda do ‘Seu’ Gardino... no acero da roça... até no rancho de guardar as canoas, me parecia que ele tava lá! 
Mas não tava, não!
Era bobagem, mãe... 
Mas sabe que eu não tinha medo? 
Sabe que eu até tinha vontade de ver o tal dragão? 
Tinha mesmo... 
Juro que tinha... 
Pois uma noite - não foi sonho - eu tava acordada, tava acordada e vi quando ele veio sem fazer barulho, sem abrir a porta, e entrou devagarinho aqui no meu quarto. 
Era o dragão, igualzinho, do mesmo jeito como o ‘Seu’ Antero me contou. 
Ai eu quis gritar pra senhora me acudir, mas quem diz que eu podia falar? 
Quem diz que eu podia me mexer?
Aí o bicho foi chegando, chegando e ficando pequeno, tão pequeno que coube ali naquele canto perto da janela. 
Não demorou ele foi se enrolando, foi ficando do jeito de um tipiti bem grande, e daí a pouco, mãe, aquilo foi virando gente e ficou do jeito de um moço, mas um moço bonito que Deus me perdoe – perdi o medo. 
O moço ficou bastante tempo ali, de pé, me olhando com uns olhos azuis da cor do céu! 
E se riu pra mim... 
Aí eu me ri pra ele e ele veio vindo, veio vindo, chegou perto de mim, passou a mão nos meus cabelos... 
Depois sentou-se aqui na cama... 
Depois... 
Depois ficou comigo! 
Oi, mãe, ele foi embora só de manhãzinha, depois que o galo cantou três vezes...
E eu fiquei com tanta pena... 
Tive até vontade de chorar... 
E chorei, não tenho vergonha de contar, chorei mesmo! 
Agora, mãe, não tenho vontade de trabalhar, nem de comer, nem de conversar, nem de nada. 
Minha vontade é de ficar aqui no quarto, de porta fechada esperando que a noite chegue e que o bicho venha e se vire no moço bonito, pra ficar comigo até de manhãzinha. 
Ainda há pouco, mãe, eu tava chorando. 
Tava chorando porque ele tava indo embora sem querer me ouvir. 
Eu tava pedindo pra ele ficar, mas ele nem ligou... 
Toda vez que vem aqui, vai embora antes do dia clarear. 
Não adianta pedir, não adianta chorar, ele não liga e vai embora. 
Então, é como já disse, eu fico aqui sozinha, pensando nele, até que volte outra vez pra ficar comigo... 
* * * Esta revelação Sinhá Anália ouviu-a no auge do desespero, quase arrastada às raias da loucura.
 Mas, que fazer? 
A quem apelar? 
Nada mais lhe restava senão rezar e pedir a parentes e amigos que fizessem o mesmo, a fim de que um milagre a livrasse de tão iníqüa provação. 
* * * Passava o tempo, quando certo dia bateu-lhe à porta um trôpego velhinho - talvez um monge,  envolvido num manto andrajoso - que, com voz sumida e rouca pediu-lhe alguma coisa para comer.
 Bastava um pedaço de pão com que pudesse mitigar a fome que lhe corroía as entranhas. 
Sinhá Anália, amargurada mãe que sofria tanto, ainda encontrou fibras sensíveis em seu coração para se compadecer do mísero viandante, faminto, maltrapilho e exausto. 
Fazendo-o entrar, agasalhou-o, deu-lhe de comer e depois de reanimá-lo, atendendo às suas indagações, relatou-lhe todo o infortúnio, toda a razão da tristeza que consternava aquela casa. 
O velhinho ouviu-a, imoto, impassível, como em prece, como que absorto em pensamentos distantes. Finda a narrativa, fez Sinhá Anália sentar-se junto dele e revelou-lhe que, de há muito, bem longe dali, em sua peregrinação, já ouvira falar do monstro satânico que atormentava a população daquele bairro.  Justamente por isso é que estava ali. 
Viera, por inspiração divina, a fim de libertá-la da opressão que lhe infringia o Espírito do Mal. 
Essa revelação correu célere pela redondeza, reunindo considerável multidão que, certo dia, sem temor, acompanhou o venerável ancião na caminhada que fez em direção a toca que abrigava o dragão da Sununga. 
Caminhavam todos trôpegos, arfando, escalando a encosta pedregosa até atingir o cimo do íngreme penedo que recobre a desmedida gruta. 
Ali chegando, o monge ergueu os braços num largo e lento gesto do sinal da cruz, e ao murmúrio de piedosa prece, espargiu por sobre a pedra a água que levara num pequenino púcaro. 
Naquele instante um trovão violento fez estremecer a terra, atordoando a multidão em prece! 
O mar, rugindo em doidas convulsões, projetou-se violento contra a impassibilidade das rochas, para retroceder, abrindo-se ao meio, bem em frente à toca, dando passagem ao monstro apocalítico que por ali avançou rugindo, sumindo ao longe, na profundeza das águas! 
* * * Nunca mais se teve notícia do dragão da Sununga. 
De Marcelina, sabemos que embora arredia, taciturna, ainda viveu por longo tempo, conservando traços da rapariga que fora "de tez suavemente morena e olhos cinza esverdeados, farta cabeleira negra e ondulada", e mantendo o "porte esbelto e curvas caprichosamente delineadas"! 
Hoje, quem se postar no interior da lendária gruta, perceberá cair lá de cima, das ranhuras da pedra, uma seqüência de pequeninas gotas que se infiltram na areia branca e fina que alcatifa o chão. 
Dizem, alguns, que são remanescentes gotas da água benta espargida pelo monge, que ainda caem, a fim de que o dragão jamais possa voltar. 
Outros, porém, afirmam que são lágrimas de Marcelina, que lá voltou muitas vezes, na esperança de que o dragão, feito moço bonito, ainda voltasse, para ficar com ela a noite inteira, até os primeiros albores da manhã!18

18 Extraído do livro "Ubatuba - Lendas & Outras Estórias" de Washington de Oliveira ("seo" Filhinho), conforme autorização do autor. 

SIGNIFICADO: 
tipiti - substantivo masculino
1. BRASILEIRISMO•BRASIL
cesto cilíndrico de palha em que se põe a massa de mandioca para ser espremida; tapiti.
2. FIGURADO (SENTIDO)•FIGURADAMENTE
S. situação difícil, da qual não se pode sair com vantagem; aperto, apuro, entalação.

púcaro - substantivo masculino 
1. pequeno recipiente, com asa, us. para retirar líquido de recipientes maiores; púcara, búcaro.
2. POR EXTENSÃO - caneco de lata.

alcatifa - substantivo feminino
1. m.q. ALFOMBRA ('tapete espesso').
2. POR EXTENSÃO
tapete grande, ger. com desenhos e cores variadas, us. para cobrir pavimentos ou ser colocado nas janelas em dias festivos.

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 4 – REGIÃO SUDESTE - CAPÍTULO 18

Com relação a ‘Lenda dos Marinhos’, Felipe passou a escrever o seguinte: 
Barbaridade! 
Há mais de três meses não chovia, numa estiada jamais verificada nestas redondezas. 
Aqui a chuva é uma constante no decorrer do ano e assim, uma seca como aquela exasperava, a população, mormente a gente dos bairros que, se dependia da pesca, muito mais dependia da lavoura para garantir a própria sobrevivência. 
De chuva, nem sinal! 
O céu mantinha uma limpidez imaculada, um azul puríssimo, sem um mínimo resquício de nuvem que pudesse dar a esperança de um próximo aguaceiro! 
O ar, parado! 
Nem uma brisa, nem uma aragem para refrescar um pouco, fazendo balançar a ressequida galharia das árvores desnudas, murchas, desfolhadas... 
Toda a região sofria por igual os efeitos daninhos da seca, mas os moradores da Praia das Toninhas, inconformados, afirmavam que lá era pior, que lá a areia da praia era mais quente que a das outras, chegando a tostar-lhes as plantas dos pés se não a evitassem, precisando caminhar por cima, por sobre o emaranhado dos ‘jundus’. 
Lá, diziam, dava pena olhar as roças, onde a plantação amarelecia esturricada sob a ação escaldante dos raios solares! 
Até a cachoeirinha que, sempre farta descia murmurante a encosta pedregosa, estava agora reduzida a um minguado filete de água, torturando o mulherio que amanhecia aglomerado ao pé da bica, na angustiante espera de encher o vasilhame! 
Seca tirana aquela! 
E a pesca? 
Também falhara. 
Se todo santo dia, logo cedo, os pescadores saiam mar afora em busca do básico alimento para o seu sustento, retomavam alto dia, desanimados, com rebotalhos, trazendo aquilo que até há pouco desprezavam na praia, à acirrada disputa dos famintos urubus. 
-- "É – dizia Tonico Honorato, patriarca da Toninhas, por isso mesmo acatado e respeitado. – Isso aí é castigo, e pelos pecadores pagam os inocentes... Já não há mais respeito, não há mais recato! Ninguém mais tem palavra! As igrejas vazias... Pra essa gente parece que Deus já não existe e seus mandamentos não valem mais nada. .. Isso é castigo!" 
Na Toninhas o que Tonico Honorato dizia era sagrado. 
Se ele disse que aquela provação era castigo, outra coisa não cabia senão rezar. 
Assim, enquanto os crédulos rezavam, aguardando o milagre da chuva redentora, Júlio e Camilo, dois inseparáveis rapazes do bairro, passaram a observar o procedimento estranho de Marino, também amigo e companheiro, mas agora arredio, evitando-os com desculpas descabidas e alegações inconcebíveis.
A princípio não deram importância, mas num dado momento, como que acordando, ficaram intrigados com tal procedimento. 
Ainda mais porque, se a pesca fracassava para todos, por que para Marino era diferente? 
Ele não saía com os outros pela madrugada, mar afora, singrando as ondas. 
Ficava em casa entretendo-se em pequenos afazeres, ou indo á roça em desnecessária vistoria às ressequidas plantas que teimavam vegetar nos aceiros. 
A tarde, porém, viam-no caminhar pela costeira com petrechos de pesca, saltando de pedra em pedra, indo ponta afora, para o costão do Itapecericuçu, onde se demorava até o fim do dia, quando regressava com o balaio transbordando de peixes, bastante para o consumo da família e com sobras até para mimosear generosamente a vizinhança carente. 
Para Júlio e Camilo – pensaram – desvendava-se o mistério: o bom pesqueiro estava para o lado do Itapecericuçu, portanto, bastaria ir lá. 
Mas, não querendo melindrar o arredio amigo, para lá se dirigiram várias vezes, cautelosos, a fim de não serem percebidos: umas, pela manhã, bem cedo, outras, alta noite, bem tarde. 
Interessante, se lá permaneciam horas inteiras, o resultado era sempre o mesmo: apenas dois ou três peixinhos de pouco mais de um palmo, daqueles sem condições de serem postejados... 
-- Por quê? – indagavam-se 
– Por que eles também bons pescadores, pescando no mesmo ponto, não conseguiam resultado igual ao de seu esquivo amigo? 
Convencidos de que um segredo maior havia e que era preciso desvendar, certa noite foram mais cedo e ocultaram-se entre moitas de samambaias, aguardando a chegada de Marino. 
Após longa espera, viram-no chegar e encaminhar-se ao declive de extensa laje, quase plana, que descia em rampa suave aprofundando-se no mar. 
Viram-no, depois de acomodar seus petrechos de pesca, descer vagarosamente o declive e parar, absorto, olhando o mar, cujas ondas subiam mansamente, uma a uma, beijando-lhe os pés, para voltarem depois, borbulhantes e alvacentas, rendilhadas de espumas. 
Num dado momento um farfalhar mais forte agitou as águas próximas e dali emergiu uma encantadora mulher, inteiramente nua, que, com desembaraço galgou a penedia, mal disfarçando a total nudez com basta cabeleira entremeada de algas e de espumas! 
Surpresos, viram Marino correr ao seu encontro, enlaçando-a nos braços, e ali permanecerem em doce e prolongado idílio! 
Que mulher era aquela, – indagavam-se – jovem, encantadoramente bela, que emergia das águas, gesticulando como se fosse muda, e vinha entregar-se em arroubos de amor a uma criatura humana? Não era por certo uma sereia, misto de peixe e de mulher que, com o enlevo de seus cânticos, em noites enluaradas atraía traiçoeiramente incautos navegantes a pélagos profundos, para a satisfação de voluptuosos desígnios de amor! 
Não! 
Aquela era mulher perfeita, de corpo escultural e beleza fascinante que ali permaneceu por longo, tempo em arroubos de amor até que, vencendo a relutância de Marino, que tentava retê-la junto a ele, desgarrou-se dele e, rápida, solerte, atirou-se ao mar, desaparecendo no verde esmeraldino das águas. Marino, então, pôs-se a pescar e em poucos momentos, como fazia todos os dias, regressou com farta provisão de peixes de grande porte - garoupas, sargos e badejos. 
Júlio e Camilo, atônitos com o que viram, voltaram outras vezes naquele pesqueiro, na esperança de desvendar o mistério de que eram testemunhas. 
Um dia a enamorada tardou a aparecer. 
O crepúsculo já se aproximava quando, emergindo airosa e bela, subiu apressadamente a inclinação da laje, para entregar-se aos braços de Marino. 
Entretanto, ao contrário das outras vezes, demonstrava ansiedade em voltar ao mar e fazendo entender o seu intento, encontrava oposição de seu amante, que a prendia nos braços sem querer desgarrar-se dela. 
Parecia resolvido a mantê-la para sempre junto dele. 
Compreendendo a situação em que se achava, a jovem passou a debater-se desesperadamente, querendo gritar, mas sem conseguir desprender a voz, nem emitir um gemido sequer! 
Na luta que se desenvolvia, Marino percebeu-lhe, na boca exageradamente aberta, a garganta obstruída por enorme guelra vermelha, que nos peixes funciona como órgão respiratório. 
Instintivamente, sem vacilar um instante, introduziu-lhe dois dedos na boca e num gesto rápido, volteando-os, estirpou, esponjosa e sanguinolenta, a guelra que a impedia de falar, mas que lhe dava condições de viver mergulhada nas águas do oceano. 
Foi então que de seu esconderijo os dois rapazes ouviram a jovem falar e perceberam que, trocando juras de amor, perfeito entendimento se estabeleceu entre eles: ela seria Ondina, filha das ondas e, casada com Marino, formariam, os dois, o venturoso lar dos Marinhos. 
Logo mais, protegidos pela sombra da noite que descia alcoviteiramente, o jovem par encaminhou-se à Toninhas, à casinha nova coberta de sapé com beirais rendilhados de róseas trepadeiras - que Marino havia construído há pouco - e lá, como em todas as histórias, a família Marinho cresceu, multiplicou-se e viveu muitos e muitos anos, alegre e feliz. 
Não posso afirmar, mas dizem que ainda há muito Marinho por aí...17

17 Extraído do livro "Ubatuba - Lendas & Outras Estórias" de Washington de Oliveira ("seo" Filhinho).
 
Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 4 – REGIÃO SUDESTE - CAPÍTULO 17

Quanto a ‘Lenda da Cruz de Ferro’, Felipe a descreveu da seguinte maneira: 

Cesídio Ambrogi 

No mais alto da serra, junto à estrada, 
No ermo sertão, na paz silenciosa, 
Por crentes mãos, um dia ali plantada, 
A Cruz de Ferro se ergue majestosa. 

E cansado de longa caminhada, 
Ante a cruz solitária e misteriosa, 
O viandante, ao passar, susta a jornada, 
Orando aos céus, em prece fervorosa. 

E a grande Cruz de Ferro, 
Negra e muda, insensível aos tempos, 
A ação ruda, serena, 
Sempre a mesma olhando o mar... 

E - milagre! - em abril, contam viajores, 
Se lhe enroscam nos braços rubras flores, 
Como se fossem rosas a sangrar... * * 

Vai todo o soneto de Cesídio Ambrogi como título de nossa história. 
Apossamo-nos dele para um prefácio luminoso, que nunca nos seria dado produzir. 
Foi em Cunha. 
Pouco distante daquela cidade, para os lados de Campos Novos, morava o Juca Mineiro, com sua adorável companheira, preocupado unicamente com o desenvolvimento do sítio. 
Enquanto isso, murmurava-se algo pelos arredores, sobre a graça e a beleza de Mariazinha que, alheia a tudo o que ocorria, avivava cada vez mais aquela paixão cabocla no íntimo do moço que a foi buscar na casa de sua madrinha nos arredores de Alfenas, numa noite de luar. 
Mariazinha foi a primeira que notou a freqüente passagem de Basílio de Campos pelo sítio: ora, para ver o cafezal; ora para pedir uma caneca de água; e muitas - quantas! - sem um pretexto plausível, razoável. 
Notou, logo depois, o modo penetrante e interessado como era encarada pelo forasteiro, e pensamentos atordoantes passaram a povoar-lhe o cérebro até então casto e indiferente. 
A má fama de Basílio era comentada, não só em Cunha como em toda a região do Vale do Paraíba, onde assinalava com proezas várias a sua passagem. 
Isso veio oprimir ainda mais o coração da caboclinha amante e fiel ao companheiro. 
Por vezes abraçou Gregório, ou melhor, Gorinho.
Beijava-lhe as faces acetinadas, vendo naquela criança o fruto de sua paixão pelo Juca. 
E quantas vezes este não a surpreendeu naquelas carícias, notando-lhe a mágoa que a pungia e o embaraço com que respondia às suas perguntas. 
Um dia o mineiro voltou do campo e procurou Mariazinha por toda a casa. 
Entrou em indagações e espalhou emissários. 
Nada! 
Dias depois, um tropeiro vindo de Guaratinguetá informou ao inconsolável Juca que a vira cavalgando na garupa de tordilho de Basílio. 
Pobre Juca! 
Daqueles tempos ditosos em que sua alma selvagem extasiava-se ante as carícias ingênuas da morena ingrata, nada mais lhe restava senão Gorinho, a lembrança querida a amargurar-lhe o coração ferido. Com o filho nos braços chorou, e depois procurou disfarçar sua dor, voltando-se atento e carinhoso à criança querida e ignorante. 
Sim, ignorante. 
Juca fez tudo para que Gorinho nunca viesse a saber quem fora sua mãe, e como esta procedera. 
De fato, aos doze anos, de sua mãe, Gorinho sabia apenas que "tinha morrido", sem saber como e quando. 
Não a tinha conhecido, portanto não sentia sua falta, mas à sua morte atribuía a profunda tristeza que dominava seu pai. 
Este, numa romaria à Basílica da Aparecida, deparou com a execrável presença de Basílio, que nele veio esbarrar, em nítida atitude de provocação. 
Levou a mão à cintura procurando a lâmina afiada que ali trazia, mas tremeu. 
A seu lado estava o filho querido. 
Se desferisse o golpe, daí em diante Gorinho seria apontado ao mesmo tempo, como filho de uma adúltera e de um assassino. 
Não! 
Gorinho havia de ignorar tudo! 
Resolveu mudar-se para Ubatuba. 
Veio aqui, adquiriu um sítio. 
Voltou a Cunha, vendeu o de lá, e partiu em companhia do filho. 
À beira-mar – pensou – viveria mais despreocupado, sem temer encontrar-se com Basílio, ou com algum indiscreto, que revelasse a Gorinho o que este devia ignorar por toda a vida. 
Por isso, ao chegar ao alto da serra, falou: 
-- Gorinho, vês aquele verde azulado lá em baixo? 
É o mar. 
Lá, às margens do oceano é que vamos morar. 
Lança um último olhar para estas regiões de Serra-acima e jura a teu pai que nunca mais passarás por este caminho. 
Juras? 
-- Mas, por que, meu pai? 
-- Não indagues, filho. Prometes que não mais transporás esta serra? 
-- Prometo, pai. 
Foi então que Juca Mineiro deu rédeas ao animal e começaram a descer silenciosamente. 
Em dado momento, cortando as conjeturas de Gorinho, surgiu por entre densas ramagens, numa curva do caminho, a figura de um homem irado, que bradou fortemente: 
-- Juca, você precisa morrer, desgraçado... 
E, sem mais demora, desfechou-lhe a pequena distância um tiro de garrucha. 
Um grito doloroso e agudo partiu do coração de Gorinho, enquanto o miserável desaparecia no matagal da serra. 
Juca, ferido de morte, levou a mão crispada ao peito ensangüentado, tombando pesadamente do animal que cavalgava. 
Gorinho, lívido, alucinado, correu para o pai, não compreendendo o que se passava. 
-- Meu filho. – falou o moribundo – Vais perder teu pai... não chores... antes, porém, vou contar-te... a minha... a nossa história... 
E com a voz entrecortada narrou toda a infelicidade que pairou sobre ele com ingratidão de Mariazinha. E terminou: 
-- Meu filho... um dia... vingarás teu pai... Deus te abençoe... E expirou. 
Gorinho plantou ali uma cruz tosca que depois foi substituída pela ‘grande Cruz de Ferro, negra e muda’. 
E assinalou assim o lugar onde um dia viria trazer o testemunho de sua vindita. 
Onze anos são passados. Gorinho é um belo rapaz de vinte e três anos, delicadamente moreno, cabelos pretos e ondulados, forte, alto, mas sempre cingido por uma nuvem de tristeza. 
A todo instante seu comportamento denuncia profundíssimo pesar. 
Certo dia, numa fresca manhã de abril, deparando a figura odiada de Basílio num dos armazéns comerciais da Prainha, a idéia da vingança prometida ferveu-lhe no peito. 
Célere, partiu pela estrada do Mato Dentro, levando nos lábios um sorriso contrafeito. 
Iá vingar o pai! 
Vingar! 
Pouco antes da Cachoeira Grande, no pé da serra, sentou-se numa pedra para descansar um pouco. Basílio, no armazém, pedira pressa, para viajar ainda naquele dia, portanto não deveria demorar-se. Gorinho, a qualquer rumor, escondia-se no denso matagal que beirava a estrada, espreitando, até que, na curva do caminho, surgiram algumas bestas trotando em direção a Serra acima. 
Logo atrás vinha Basílio montado num cavalo baio, fumando despreocupadamente, esquecido talvez do hediondo crime que praticara, onze anos antes, um pouco mais adiante. 
Gorinho estremeceu. 
Sacou de um punhal, saltou na estrada e gritou: 
-- Pára, miserável! Salta do cavalo! 
-- Que queres? Eu não trago dinheiro. Levo apenas minhas bestas. – respondeu Basílio, deixando com moleza a sela, não reconhecendo no "ladrão", o filho de suas vítimas. 
-- Lembras-te de minha mãe? 
-- Tua mãe? Não sei não. Quem era a tua mãe? 
-- Tens razão, eu nunca tive mãe... Lembras-te da desgraçada que roubaste de meu pai? 
-- Ah! És tu, Gorinho? Mariazinha... 
– Basílio ainda quis falar mas uma lâmina fria varou-lhe o coração. 
Gorinho, imperturbável, olhou o céu numa atitude de súplica e, lançando-se sobre o cadáver, com violência, arrancou farrapos da camisa ensangüentada, montou no cavalo da própria vítima e partiu em disparada para a serra. 
Ao transpor a Volta Grande avistou a ‘cruz solitária e misteriosa’. 
De um salto deixou a alimária e, correndo em sua direção, com os olhos rasos de lágrimas, falou baixinho: 
-- Pai! Estás vingado! Eis aqui ainda quente o sangue de quem te fez desgraçado... 
E, como no cumprimento de um dever, depôs nos braços da Cruz de Ferro, os farrapos ensangüentados. Osculou-a e ia retirar-se, quando observou viandantes que desciam, vencendo a longa caminhada, parecendo extasiados, na contemplação do maravilhoso cenário que dali se descortinava. 
O rapaz tremeu. 
Estavam já a poucos passos. 
Rápido, volveu os olhos para a cruz onde pusera os farrapos ensangüentados. 
Milagre! 
Viam-se agora nos braços corroídos, o enroscado caprichoso de uma planta silvestre e balouçando à fresca aragem da tarde, rubras corolas de flores perfumadas! 

* * * É por isso que tão bem disse Cesídio Ambrogi: 
É milagre! - em abril, contam viajores, 
Se lhe enroscam nos braços rubras flores, 
Como se fossem rosas a sangrar...16

16 Extraído do livro "Ubatuba - Lendas & Outras Estórias" de Washington de Oliveira ("seo" Filhinho).
Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 4 – REGIÃO SUDESTE - CAPÍTULO 16

 Sobre a ‘Lenda: 
O Corpo Seco’, conta-se o seguinte: 
-- Truco!- Toma seis, que trêis é poco. 
-- Ganhe, mardito! 
Esse jogo, cada vez mais animado, era cena comum todas as noites no botequim do Moreno, na esquina do Largo da Campina, naquele tempo bastante diferente da topografia de hoje, Praça 13 de Maio. Bernardino de Campos - Dinico, como todos o conheciam - era infalível. 
Podemos dizer até que as ‘sessões’ eram abertas por ele, e por ele encerradas. 
Rapaz de costumes e vícios abomináveis, causava ao mesmo tempo compaixão e repulsa. 
-- É sorte. – diziam alguns, vendo o belo rapaz, nos seus vinte anos primaveris, caminhar sinuosamente sob efeitos do álcool, pelas ruas da cidade. 
-- Miserável! – bradavam outros, quando suas nefandas aventuras eram propaladas, deixando com os interlocutores a nauseante repugnância que tais fatos lhes causavam. Conselhos, mesmo os lacrimosos de seus velhos pais, não o demoviam do seu propósito, e se a polícia o conduzia, assegurando a tranqüilidade pública, o cínico rapaz repetia aos conhecidos que ia encontrando na rua: 
-- Tão vendo? Prá hoje arranjei cama e comida! A cadeia não foi feita prá cachorro... 
Seus pais viviam na mais profunda miséria, numa casinha em ruínas, lá para os lados da Jundiaquara, não se conhecendo ao certo o lugar preciso dessa habitação. 
José, o filho mais velho, empregando-se em Santos, era o protetor daquele lar infeliz.
Emília, a menina que tanta cobiça despertara aos rapazes daquele tempo, casou- se com o Neguinho Alves, e foi morar no sertão do Perequê-açu. 
Dinico era o último filho. 
Ficou para martirizar impiedosamente aquele casal de velhinhos. 
O velho Crispim piorava dia a dia. 
A velhice, as necessidades, as agruras provindas do procedimento do filho, arrastavam-no a largos passos para a sepultura. 
Ao anoitecer de um sábado, Maria Rosa, percebendo o estado agonizante de seu companheiro, chamou carinhosamente o filho: 
-- Dinico, teu pai vai morrer! Leva estas últimas moedas, procura um remédio que o conforte no seu último momento, e traze uma vela para, depois, acendê-la junto ao seu cadáver. Vai, meu filho... É para teu pai! 
E a pobre velhinha afogou-se num turbilhão de lágrimas. 
Dinico arrebatou as moedas, e saiu com um sorriso sarcástico nos lábios. 
Quem sabia os pensamentos que lhe assaltavam o cérebro? 
Adivinham-se logo. 
Ao entrar na cidade encontrou-se com o Chico Bento e o Manduquinha, que o convidaram para uma "trucada". 
--Vamos. Eu sempre sô companheiro. – respondeu. 
Lançou para longe a lembrança da enfermidade do pai, com a mesma naturalidade com que atirou a um, lado a ponta de cigarro que trazia presa aos lábios, e caminhou para o antro do Moreno, a fim de jogar as moedas recebidas de sua mãe. 
Alta noite, alguém ali chegando, não pôde conter a exclamação: 
-- Dinico! Teu pai morreu... -- Meu pai? Ora... Truco! Morreu? Morrê por morrê, morra ele que é mais velho... 
Estas palavras, embora proferidas num antro de degenerados, causaram sensível constrangimento, e profundo silêncio pairou sobre o ambiente. 
Dinico espantou-se, e rompeu o silêncio: 
-- Não qué? Truco outra veis! 
Pareceu, então, que a irreverência do desalmado agiu como surdo furacão dissipando a nuvem tétrica, pesada, que havia pairado no ambiente envolvido pelo fantasma da morte. 
O barulho recomeçou. 
Mais álcool, mais miséria... 
No dia seguinte, quando voltava para casa, vociferando, cambaleando, encontrou a rede que transportava os despojos do autor de seus dias. 
E chegando à casa, não encontrando com que saciar a fome corrosiva que trazia no estômago, espancou a velha mãe em inominável atitude de violência e crueldade. 
Mas é forçoso relatar que assim procedia, sempre que a velha Maria Rosa recebia dinheiro do bom filho José e negava-se a entregá-lo ao miserável, com os olhos fitos na sua regeneração. 
Aí, o braço forte do filho algoz caía, impiedoso, sobre a mártir e indefesa mãe. 
Esta não demorou em tombar no mesmo leito em que expirara o velho Crispim. 
Ali gemendo abandonada, paralítica, recebendo apenas o espaçado conforto de um ou outro vizinho compassivo, porque Dinico continuava na mesma vida desregrada. 
Quadro horrível! 
Uma noite entrou inopinadamente pelo casebre, a figura horripilante do ébrio inveterado. 
Maria Rosa, coitada, quase em agonia, implorou: 
-- Filho das minhas entranhas... Eu morro... Mas, antes, quero ver-te no bom caminho... Eu morro, filho! Tenho sede! Dá-me um pouco de água ... 
-- Tens sede? Por que não morres? Toma, mata tua sede. 
E assim dizendo passou rapidamente o pé, no braseiro que crepitava a um canto, lançando brasas sobre a velha moribunda.  
Depois, caminhou apressadamente para a porta, mas uma força estranha tolheu-lhe os passos. 
Parece que para fazê-lo ouvir sua mãe dizer: 
-- Miserável! Vai! A minha maldição te perseguirá sempre! Não terás sossego em tua vida, nem paz depois de morto! Bandido! A própria terra te rejeitará... Vai! 
Dinico espumou numa risada de ódio e de sarcasmo. 
Como um touro bravio, abandonou aquela casa onde nunca mais voltou. 
Morrendo-lhe a mãe, a maldição desta não se fez esperar. 
O rapaz viu-se na miséria, abandonado, sem amigos, sem uma palavra de consolação. 
Tudo o rejeitava. 
Dizem que as árvores negavam-lhe sombra, deixando atravessar entre as ramagens os raios escaldantes do sol. 
As fontes ferviam se o desgraçado ia beber. 
Suicidou-se. 
Encontraram-no enforcado no ramo de uma árvore, pendente sobre o Rio Lagoa, conhecido por Barra da Lagoa. 
Tratou-se do seu enterro, entre os diversos comentários da população, mas o fato começou a ser mal encarado, quando, no dia seguinte ao do sepultamento, o coveiro deparou com o cadáver de Dinico sobre a sepultura. 
Assombrado com esse fato inédito, tratou de enterrá-lo novamente, mas de novo o cadáver emergiu à flor da terra. 
Alguns parentes do morto, alta noite, transportaram aquele corpo mumificado para a costeira do Caruçumirim (Prainha), lá para os "lados de fora", mas, desde então começou o tormento dos pescadores. 
Nas horas caladas, gritos medonhos partiam da costeira. 
O praguejado rogava a sua mudança daquele sítio, pedia que o levassem para a Barra da Lagoa, talvez porque tivesse morrido lá. ontavam, depois, que certa noite, espectros macabros foram vistos transportando dali um vulto qualquer, mal divisado à luz funérea de ossadas fosforescentes. 
O fato é que na costeira da Prainha, não mais se ouviram os lancinantes gritos do fantasma. 
Véspera de Natal. 
Dezenas de presépios estavam sendo armados por toda a vila. 
Um vaivém de pessoas preocupadas nesse mister via-se nos arredores da vila, colhendo líquens e parasitas para o adorno natural da cena de Belém. 
Chiquinha Bastos e Clarita Pinto, duas moças peritas no assunto, foram explorar as margens do Rio Lagoa. 
Juntavam-se aqui, distanciavam-se ali, quando Chiquinha encontrou um cepo disforme, coberto de belíssimas parasitas. 
Sofregamente pôs-se a catar aquelas preciosidades, para apresentar melhor colheita que a amiga. Depois de limpá-lo todo, passou-lhe um olhar de observação e, maquinalmente, a meia voz, falou: 
-- Pronto, acabou... 
Já se retirava, quando ouviu uma voz dizer: 
-- Moça, aqui tem mais. 
Voltou-se. 
Soltou um grito agudo e caiu sem sentidos. 
O cepo que há pouco lhe fornecera delicadas plantas, mudava de posição, deixando transparecer perfeitamente as formas de um corpo humano, ressequido e corroído pela ação do tempo. 
Dizem que até hoje ali está o corpo do degenerado que a terra não quis receber, atendendo aos rogos da velha Maria Rosa.15

15 Extraído do livro "Ubatuba - Lendas & Outras Estórias" de Washington de Oliveira ("seo" Filhinho).

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte. 

COISAS DO BRASIL PARTE 4 – REGIÃO SUDESTE - CAPÍTULO 15

 A seguir, Felipe começou a escrever sobre a ‘Lenda do Corcovado’. 
Começa assim: 
A história que vou contar, nada tem absolutamente com o famoso pico que orna o belíssimo pano de fundo do maravilhoso cenário, que é a Baía da Guanabara. 
O Corcovado em questão, é o que se encontra próximo desta cidade, para as bandas do sudoeste. 
É uma formidável corcunda de pedra que se eleva da silhueta da Serra do Mar, da qual é, nestas redondezas, o ponto mais elevado, fazendo realçar essa giba desde Picinguaba até a ponta do Martim de Sá, nas proximidades de Caraguatatuba. 
Aqui o Corcovado não tem a airosidade e o prestígio do seu colega do Rio de Janeiro, não recebendo visitas de turistas deslumbrados. 
Não recebe, mesmo porque as rejeita. 
Castiga severamente quem ousa mergulhar no mistério em que vive. 
Ouçamos: 
Pouco depois de Jordão Homem da Costa vir com diversas famílias povoar a antiga aldeia de Iperoig, já então com o nome de Ubatuba, aventureiros daquele tempo quiseram ir ao topo do Corcovado. 
Os primeiros que isso tentaram foram dois rapazes, jovens ainda, Pablo e Juan, filhos de um fidalgo espanhol, proprietário aqui de vasta sesmaria. 
Partiram aos primeiros clarões de uma fresca madrugada de abril, confiantes no êxito dessa aventura. Mas, passaram-se dias sem que voltassem, começando aí a inquietação na família dos moços. 
Julgou-se que eles se haviam perdido, mas, ao certo, não se conseguiu saber por que não regressavam. Um escravo do espanhol, favorito de Pablo, prometeu ao seu amo ir buscar notícias do ‘Sinhô Moço’ no cimo do gigante de pedra. 
Seus companheiros, ao pé da escarpa, viram-no subir agilmente agarrando-se aos cipós e às saliências da pedra, e depois sumir lá no alto por entre moitas de samambaias. 
Esperaram-no até o dia seguinte. 
Nada. 
Voltaram outros dias à sua procura, mas, como os desventurados Pablo e Juan, nunca mais o preto apareceu. 
Em 1697, quando ao primeiro centenário da morte de José de Anchieta, veio de São Vicente rezar missa na Capelinha de Ubatuba por intenção da alma do grande catequizador, Frei Bartolomeu, da Ordem dos Franciscanos. 
Esse frade permaneceu mais alguns dias nesta vila e, ouvindo dos habitantes a narrativa do fato acima relatado, e de outros que se sucederam, declarou decididamente que iria ao topo do Corcovado, onde, para provar a ascensão, colocaria uma grande bandeira vermelha, perceptível aos que o acompanhassem até ao pé, da aterrorizadora escarpa. 
E se bem o disse melhor o fez. 
A grande comitiva que nesse lugar ficou postada viu, horas depois, bem lá no alto, o desfraldar da sanguinolenta bandeira que Frei Bartolomeu levara consigo. 
Um frêmito de alegria espalhou-se por todos aqueles observadores, ansiosos pela volta do padre que, de regresso decerto desvendaria o porquê misterioso do Corcovado. 
Esperaram-no debalde. 
Alguns homens dos mais corajosos, dispuseram-se a ficar durante a noite à espera do missionário. 
Mas era por demais apreensiva a situação daqueles homens. 
O silêncio parecia estrangular a Natureza que, de instante a instante, num arranco horrível, gemia agonicamente pela garganta de um pássaro noturno. 
Meia noite! 
Seria meia noite, quando uma exclamação quase de alívio partiu daqueles peitos ofegantes: 
-- Ei-lo! 
De fato, pela rocha nua, lentamente, arrastava-se Frei Bartolomeu, pelo mesmo trajeto pelo qual havia subido. 
Devia estar cansado. 
De vez em quando parava, arrumando o hábito marrom, sustendo na cintura o frouxo cordão branco, e parecendo levar por vezes aos lábios o níveo crucifixo de marfim que lhe pendia ao peito. 
Um vago clarão de lua jorrou sobre a monástica figura, denunciando um livor funéreo em suas faces tristes e descamadas. 
Correram todos para recebê-lo, mas... 
--Onde está frei Bartolomeu?! – perguntaram-se com os olhos. 
– Não mais o viram. 
Esperaram-no mais algum tempo, porém o frade não desceu. 
Um deles gritou, e o eco respondeu lá no fundo, nas gargantas sombrias da cordilheira. 
Logo depois um gemido horrível partiu, não sabem de onde, envolvendo a floresta inteira! 
Um frio de morte, uma sensação ignota agitou as carnes daqueles homens. 
Sem articular palavra, lívidos, completamente desnorteados, abandonaram em disparada aquele sítio maldito, ouvindo o eco sumir longe, muito longe, na imensidão da noite! 
* * * Hoje ainda, à meia noite, quem se for postar ao pé da misteriosa elevação verá a figura do venerável Frei Bartolomeu descer lentamente pela rocha nua, sem nunca, porém, chegar à base. 
* * * Dizem que o Corcovado é encantado, ocultando uma rica mina de ouro pertencente a um gênio, que a defende dos homens. 
Ouro lá existe, e vou provar com outro fato verdadeiro, como verdadeiro é o que acabo de contar.14

14 Extraído do livro "Ubatuba - Lendas & Outras Estórias" de Washington de Oliveira ("seo" Filhinho).

SIGNIFICADO: 
giba - substantivo feminino
1. saliência convexa nas costas, peito ou dorso de homem ou animal; bossa, corcova, geba.
2. MORFOLOGIA BOTÂNICA
proeminência em forma de corcova em um órgão laminar ou maciço.

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 4 – REGIÃO SUDESTE - CAPÍTULO 14

Com isso, Felipe passou a escrever mais uma lenda: 
‘A Mina de Ouro’. 
Começa assim: 
Em vista dos misteriosos fatos contidos em algumas narrativas, ninguém mais se atrevia aproximar-se do "Pico Encantado". 
Muitos anos depois do desaparecimento de Frei Bartolomeu, o Capitão Manoel Fernandes Corrêa instalou uma belíssima fazenda na Praia Dura. 
Um dia, Alice, filha única do capitão Corrêa, saiu à caça nas proximidades. 
Vendo-se só, longe da vista severa do pai, admirando o cenário belíssimo que se deparava aos seus olhos virgens de tanta maravilha, embrenhou-se incautamente pela mata. 
Súbito, um medo vago e inexplicável percorreu aquele corpo misto de anjo e de mulher. 
Quis voltar, mas compreendeu que estava perdida. 
Correu, gritou, sentiu faltarem-lhe as forças, e os espinhos aduncos rasgaram-lhe as carnes alabastrinas.
Um último esforço e caiu desfalecida. 
Ao cair da noite, quando o sino melancólico da fazenda chamava do eito os escravos para a ceia, era indescritível o desespero do Capitão Corrêa pelo desaparecimento da filha. 
Mandou reunir a turba negra e, pela primeira vez suplicante e dócil, o impiedoso senhor proclamou que daria liberdade imediata ao servo que lhe trouxesse, com a maior rapidez possível, sua querida Alice.
Nenhum crédito deram os escravos àquelas palavras brotadas de um coração empedernido, momentaneamente compungido com o desaparecimento da filha, mas a adoração que dedicavam a Alice - angelical e bondosa criatura - fez daqueles homens exaustos, umas feras bravias. 
Sem tomar alimento algum, cada qual partiu para um lado, sem esperança de recompensa, mas querendo ser o primeiro a beijar a mão da "Nina Alice". 
Pedro, um escravo robusto, forte, parou repentinamente na corrida em que ia. 
Sua idéia embrutecida vagueou procurando recordar-se da companheira amada e de uma filhinha de dois anos de idade, que o impiedoso capitão vendera, por castigo! 
Quis esconder-se e voltar no dia seguinte "sem notícias de nina Alice", mas... - Alice! – esse nome repelia a idéia de vingança que fervia em seu cérebro inculto, porém, compreensivo. 
Odiava o pai mas adorava a filha. 
A adoração venceu. 
Enxugou as lágrimas que lhe corriam pelas faces retintas, e reencetou a busca interrompida há pouco. Cansado, parou. 
Sentou-se um pouco para reanimar-se, mas foi logo atraído por um farfalhar de folhas secas acompanhado de um gemido surdo e prolongado, partido de pouca distância. 
Aproximando-se cautelosamente, percebeu estendido no chão um vulto alvo de mulher, mal distinguido na escuridão da noite. 
-- Nina Alice! – exclamou o preto com sua voz fanhosa e forte. 
– Oh, salva-me! Tira-me daqui... Quem é? Meu pai? Luz... Quero luz... Horas depois, nos robustos e retintos braços de Pedro, Alice subia os degraus da ‘Casa Grande’. 
Horrores da escravidão! 
No dia seguinte, Pedro, exausto pelo esforço despendido durante a noite, gemia sob açoites, no tronco, porque não podia trabalhar. 
Alice, sabendo o que se passava com o seu salvador, exigiu do pai o que na véspera prometera espontaneamente. 
Liberto, Pedro beijou as mãos de "Nina Santa" e partiu sem destino, para os lados do Corcovado, e lá instalou sua choça, ao lado de uma cascatinha murmurante, próxima, bem próxima da escarpa misteriosa. 
Corria de boca em boca a aventura de "Pai Pedro". 
O preto vinha sempre a Ubatuba com pequenos canudos de bambu cheios de grânulos auríferos, que trocava por fumo, cachaça e alguns gêneros, com os quais assegurava sua subsistência. 
Essa notícia foi bater também na fazenda do capitão Corrêa, que duvidava do que lhe diziam, mas, um dia, ele mesmo viu na vila as negociações que eram propaladas. 
Cheio de inveja e cobiça, pensou logo em se apoderar do tesouro do preto. 
Certa noite, em companhia de um grupo armado, foi à choça de Pedro, capturando seu ex-escravo e levando-o para a sua fazenda. 
Ali chegando, sem mais delonga, Pedro foi premido a contar como descobrira aquele fabuloso tesouro. -- Sinhô, Pedro num pode cuntá, pruque... 
Uma violenta chicotada estalou nas faces já rugosas do mártir, cortando-lhe a frase. 
Depois, novas torturas, imprecações, terríveis ameaças, até que Pedro resolveu iniciar a narrativa, na linguagem carregada e fanhosa, toda peculiar aos pretos africanos. 
Disse que foi morar no sítio solitário onde o encontraram, bendizendo sempre o nome de Alice, até que um dia, na vila, veio a saber da morte da moça, sua libertadora. 
De volta à choça, um profundo pesar oprimia-o todo. 
Pedro parou para disfarçar um soluço e enxugar uma lágrima, ao que o capitão esbravejou: 
-- Continua, bandido! 
E Pedro continuava, trêmulo, acovardado. 
À noite não conseguira dormir, parecendo-lhe ouvir ao longe a voz cristalina da moça, numa canção de amor. 
De repente a porta do casebre tremeu e escancarou-se, penetrando por ela um vulto diáfano de mulher. Era Alice! 
Ele a reconheceu. 
Como que agarrado por mãos invisíveis, não se pôde mover no lugar em que se achava, mas ouviu perfeitamente a visão dizer: 
-- Pedro, tu foste um dia o meu salvador. Dei-te a liberdade, mas sei que sofres, neste exílio onde te arrojou a impiedade de meu pai. Não te assustes e ouve-me. Não muito longe daqui, oculto nas entranhas da terra, existe uma mina de ouro. Ela será tua sob a única condição de nunca revelares a outrem esse lugar cobiçado. Se isso tentares, a vingança do gênio protetor da mina cairá sobre tua cabeça, ouviste? Cuidado, pois, e segue meus passos. 
-- Negro maldito! – gritou o capitão – não retardes a revelação. Onde está o tesouro? 
-- Sinhô... tá lá pra banda do... 
E o surdo ruído do baque de um corpo ecoou na sala da ‘Casa Grande’. 
Pedro caíra morto, fulminado, antes de revelar o sítio misterioso de tão cobiçado tesouro, que até hoje jaz nas proximidades do Corcovado. 
Pedro bem dizia: 
-- Negro num pode cuntá...13 

13 Extraído do livro "Ubatuba - Lendas & Outras Estórias" de Washington de Oliveira ("seo" Filhinho).

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.