Poesias

sexta-feira, 30 de julho de 2021

SOCIEDADE ALTERNATIVA - CAPÍTULO 6

Então, diante do seu insucesso, Lizandra desistiu de procurá-lo.
Até porque, quanto o rapaz quisesse ser conhecido, ele se encarregaria de se apresentar.
Enquanto isso, Lizandra, podia apreciar as cartas que lhe eram enviadas constantemente. Quase que, diariamente recebia as correspondências.
Um dia, pensando em como recebia as cartas, chegou até a pedir para uma de suas amigas, observarem quem se aproximava de seus pertences, na sala de aula.
Por conta disso, Lizandra chegou até a pegar um garoto, colocando uma carta entre as folhas do seu caderno. Mas infelizmente, o rapaz era apenas um mensageiro, que apesar de pressionado, não revelou o remetente das cartas. Disse apenas que um intermediário lhe entregava a correspondência e o pedia para colocar entre os pertences dela.
No entanto, tal explicação não esclarecia muito.
Por isso, Lizandra resolveu então esperar.
E assim, depois de algum tempo, finalmente descobriu quem era o misterioso autor das cartas.
Para sua decepção, Lindolfo era o autor das aludidas cartas.
Educadamente, ele argumentou, que em vista de sua resistência, não podia se identificar. Daí, passou a se utilizar de um nome falso. Respondeu ele ainda, que tudo o que havia escrito que era verdadeiro, e há muito tempo, estava interessado nela.
Mas Lizandra, aborrecida, não quis saber. Sentindo-se enganada, disse a Lindolfo que não tinha interesse em ter um encontro com ele. Disse também para que ele não insistisse mais, que não adiantavam suas armações.
Ao perceber que sua estratégia não havia dado certo, Lindolfo tentou se desculpar. Disse que, como não conseguia se aproximar dela, pensou então em lhe escrever. Acreditou que, assim conseguira se mostrar como realmente era.
No entanto, suas explicações, de nada adiantaram. Pelo menos inicialmente, Lizandra resistiu o quanto pôde a suas investidas.
Ressabiada, Lizandra só aceitou sair com ele, quando, segura quanto a suas intenções, percebeu que Lindolfo queria ter um compromisso mais sério.
Para tanto, o rapaz foi apresentado a família da moça.
E, apesar de seus pais não terem simpatizado muito com o jovem, decidiram no entanto, que a moça poderia sair com ele, desde que acompanhada de uma amiga.
Mas mesmo assim, o rapaz levou meses, para convencer os pais da moça, de que não estava brincando. Diversas vezes disse aos pais da moça, que estava seriamente envolvido com ela. Contudo, precisava conhecê-la melhor.
Além do mais, possuía emprego. Portanto se o relacionamento progredisse, conforme fosse sendo promovido em seu trabalho, facilmente, poderia lhe proporcionar um bom padrão de vida.
E assim, durante meses, os dois saíam acompanhados da aludida amiga. A tal amiga da família, era uma forma dos pais da moça se assegurarem de que tudo estava bem. De que não precisavam se preocupar com as saídas da filha.
Dessarte, apesar do inconveniente, Lindolfo não pestanejou. E depois de meses tentando sair com a moça, resolveu aceitar a imposição. Afinal o sacrifício valia a pena.
Um dia, ao passear com Lizandra, pela região central da cidade, Lindolfo foi visto por um dos seus colegas, de mãos dadas com a moça. O rapaz, ao perceber que uma moça, acompanhava os dois, caiu na gargalhada.
E não demorou muito para que a notícia se espalhasse. Seus amigos, ao perceberem o inconveniente da situação, não lhe pouparam piadas. Durante os meses em que namorou a moça, teve que suportar as gozações dos amigos.
Mas para ele, tudo isso valia a pena. Finalmente havia conseguido sair com a garota dos seus sonhos.
E assim, ao final de meses de namoro, Lindolfo resolveu oficializar o compromisso.
Depois de presenciar o casamento dos amigos Rodrigo e Celeste, que foi celebrado na Igreja da Matriz, com muita pompa e circunstância, sentiu necessidade de formalizar seu compromisso com Lizandra.
Isso por que, até mesmo Maurício e Adriane, já estavam noivos há algum tempo.
Além disso, trabalhando já há bastante tempo como engenheiro, no escritório em que iniciara como estagiário, já reunia condições suficientes para manter uma família.
E assim, depois de algumas semanas, a despeito da oposição da família em aceitar o compromisso dos dois, Seu César e Dona Odete, diante da boa situação financeira do rapaz, concordaram com o noivado.
Afinal, apesar do caráter duvidoso de Lindolfo, o mesmo tinha agora, uma boa condição financeira. Por isso, podia confortavelmente manter Lizandra.
Isso porque, Lizandra era de boa família e portanto, bem nascida. Por isso, não poderia se casar com um homem que não pudesse mantê-la com o mesmo padrão de vida. E, assim, Lindolfo passou a fazer parte da família.
Depois de algum tempo, finalmente se casaram. Adentrando a Igreja da Matriz, diante da autoridade eclesiástica, contraíram núpcias. Casados, a união dos dois se tornara indissolúvel.
Numa linda cerimônia, assumiram o compromisso de se cuidarem mutuamente e de serem fiéis um ao outro, até que a morte os separasse.
A seguir, no salão de festas da cidade, comemoraram o casamento tão esperado pelos dois. Entre os convivas, dançaram e comemoraram o matrimônio com muito champagne, um magnífico bolo, e muita comida e bebida, além de muita música e rock and roll.
A festa dos dois, foi muito concorrida. Isso por que, em sendo o casamento de Lizandra, todos na cidade, quiseram participar. Por ser muita querida na cidade, a moça possuía muitos amigos.
Depois, após uma longa e maravilhosa comemoração, seguiram em viagem de lua-de-mel.
Durante a viagem, conheceram diversas cidades históricas, da região do triângulo mineiro. E por semanas, visitaram igrejas, apreciaram esculturas, conheceram lugares famosos da história. Enfim conheceram um pouco melhor a história do Brasil.
Lizandra, formada em letras, se encantou com a história do lugar, e com detalhes históricos que não conhecia.
Fascinada pela cultura brasileira, ao retornar de viagem, não se cansava de comentar o quanto o nosso país era rico e interessante. Apesar da cultura nacional não ser valorizada, Lizandra sempre dizia que tal atitude, era um erro muito grave.
Por isso, no início do casamento, insistia com o marido, para que este a deixasse trabalhar. Afinal com um diploma nas mãos, poderia ao menos lecionar.
Mas, Lindolfo, sempre que ouvia este pedido de sua esposa, alegando que seu salário era suficiente para os dois, recusava-se veementemente, a aceitá-lo.
Além do mais, na sociedade machista da época, somente o homem trabalhava. Era o provedor, à mulher só cabiam as tarefas domésticas.
E assim, a Lizandra só sobraram os afazeres domésticos. Mesmo possuindo empregada, seu marido a proibia de trabalhar. Sempre dizia a ela que:
-- Mulher minha não trabalha.

Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

SOCIEDADE ALTERNATIVA - CAPÍTULO 5

Contudo, a noiva era Celeste.
Nesse ínterim, enquanto a jovem procurava montar seu enxoval, Lindolfo aproveitava as tardes para paquerar um pouco.
A despeito de já ter namoradas demais, adorava paquerar as moças. Mesmo quando estava namorando alguém, não perdia a oportunidade, de mirar seus olhos em alguma bela garota que passasse.
Entretanto, depois de quase quatro anos, finalmente reencontrou a jovem que vira na praia, pela primeira vez.
Lizandra caminhava em direção a praça da cidade. Embora estivesse sozinha, não parecia estar atenta a nada.
Por isso, Lindolfo, ao vê-la, tratou logo de se aproximar.
Sem ter muito o que dizer, começou dizendo simplesmente um oi.
No entanto, por estar distraída, Lizandra assustou-se com a aproximação.
No que Lindolfo, ao perceber que a havia assustado, tratou de se desculpar. Lamentando o incidente, ofereceu a moça, como um se fora um pedido de desculpas, um convite para tomar um sorvete.
Gentil, a moça recusou.
Mas Lindolfo não se deu por vencido. Continuou insistindo. Disse que se ela não aceitasse seu oferecimento, ficaria sem graça. Precisava se desculpar por isso.
Ao comentar sobre isso, Lizandra então se lembrou que Lindolfo era o rapaz inconveniente que a abordara numa festa anos atrás, e criara tumulto.
Aborrecida então, desculpou-se, mas disse que não podia aceitar o convite, já que tinha um compromisso. Diante disso, tentou encerrar a conversa, já indicando que pretendia se afastar.
Mas, Lindolfo continuou insistindo.
Contudo, alegando não que queria ser inconveniente, disse que não insistiria se ela lhe desse a chance de se desculpar por ter deixado tão má impressão. Queria realmente desfazer a má impressão.
Desculpando-se novamente, disse que normalmente, não se comportava daquela maneira, mas como ela o havia impressionado demais, acabou ficando atordoado. Não sabia o que fazer. Toda vez que tentava se aproximar dela, alguma coisa dava errada. E, quando finalmente, os deuses conspiravam a seu favor, ele estragava tudo, adotando um comportamento inconveniente. Por isso, precisava se desculpar e mostrar que, ele, Lindolfo, era muito mais que aquilo.
No entanto, apesar de seu discurso formado, não conseguiu convencer Lizandra, em sua primeira tentativa. Insistindo na conversa de que agira mal e estava arrependido, tentou convencer a moça de que falava sério. Para isso, não mediu esforços.
Durante semanas, esperava a moça sair da faculdade para então, interceptá-la na saída. Nessas oportunidades, oferecia-lhe rosas.
Como estava estagiando em um escritório de engenharia que havia na cidade, possuía alguma renda. Por isso, sempre que podia, comprava um botão de rosa e oferecia a moça.
Certa vez, chegou até a decorar uma poesia e recitá-la para a moça.
Enfim, fez o que pode para se aproximar de Lizandra.
Chegou até, a realizar uma seresta em frente a sua janela, para convencê-la a sair com ele.
Mas, a moça realmente, não era fácil. Isso aliás, o deixou ainda mais interessado. Cada vez que ela o ignorava, mais vontade ele tinha de conquistá-la, não importasse o que ele tivesse que fazer. E assim, só uma coisa ocupava seus pensamentos desde então. Como fazer para conquistar a moça? Afinal, pensava ele, o que seria preciso fazer para convencê-la a dar um simples passeio com ele?
Foi então que ocorreu-lhe a idéia, de que talvez a tivessem prevenido, sobre sua fama de mulherengo. Para ele, talvez essa fosse a razão pela qual a moça não topava sair com ele. Devia ser por esta razão que a moça não queria saber de aproximação. Afinal, quem seria louca de se relacionar com um homem daquele tipo?
Para ele, só isso poderia explicar a resistência da moça. Não havia outra razão para explicar tamanho desinteresse.
Ao chegar a essa conclusão, percebeu que deveria adotar então, outra tática. Os espetáculos que estava promovendo, não estavam funcionando. Assim, diante de tão desanimador quadro, resolveu se afastar um pouco.
Seus amigos, ao perceberem seu comportamento obsessivo em relação a moça, diversas vezes lhes perguntaram se tudo isso era um verdadeiro interesse, ou se não passava de um mero capricho.
Aborrecido, por ouvir isso, recusava-se sistematicamente a responder a pergunta. Alegando que estava interessado na moça, considerava a pergunta dos amigos, desrespeitosa.
E apesar de ter se afastado da moça, não conseguiu disfarçar seu interesse por ela.
Mas, resolveu se manter firme em relação a isso.
Assim, durante algumas semanas, evitou se aproximar da moça.
Lindolfo achou que, em assim procedendo, Lizandra passaria a procurá-lo.
Entretanto, não foi isso o que aconteceu. Discreta, Lizandra nunca demonstrou qualquer interesse nele. Até pelo contrário, quando percebeu que o rapaz se afastara, sentiu um certo alívio.
Por isso, para decepção de Lindolfo, Lizandra nunca foi procurá-lo.
Por conta disso, o rapaz já estava quase desistindo. Quase. Por que, diante do quadro apresentado, resolveu, por sua conta e risco, uma última alternativa.
Tentaria convencê-la a ter um encontro com ele, com cartas manuscritas. Nessas missivas, falaria de seus sentimentos e escreveria poesias.
Contudo, por não ser um homem dado as palavras, ainda mais as escritas, resolveu comprar alguns livros de poesia. Neste momento, lembrou que a moça, alvo de toda sua adoração, estava no quarto ano do curso de letras.
Diante disso, ao escrever as ditas poesias, teria que ter todo o cuidado em identificar os autores, já que, presumivelmente, Lizandra, era profunda conhecedora do assunto.
Foi então, que, ao dar-se conta disso, constatou, que não seria tarefa das mais fáceis, convencer a garota, de que estava sendo sincero. Contudo, a despeito disso, resolveu que ao menos tentaria.
Isso por que, depois de tanto tempo insistindo, não poderia desistir. Afinal, era sua reputação que estava em jogo. Até porque, já havia ganho fama na cidade, de grande conquistador. Portanto, tinha que conquistar Lizandra.
Afinal, desde que a vira na praia, invariavelmente, a moça habitava seus pensamentos. E assim nunca havia desistido totalmente de uma aproximação.
No entanto, Lindolfo sabia que se houvesse realmente um encontro, Lizandra não era como muitas das moças que freqüentavam a universidade. Portanto, teria que se portar de melhor maneira possível com a moça.
E assim o fez.
Primeiro, com as cartas de amor que escreveu para ela, evitando se identificar, mencionou que há muito tempo procurava uma mulher como ela. E que estava gostando dela. E ainda, além das suas palavras, procurava sempre anexar um poema. Com isso, queria provar para a moça, que era uma pessoa sensível, e bem intencionada. Porém, nunca se identificava.
Não queria que Lizandra se recusasse, até mesmo, a receber as cartas. Além do mais, precisava conquistar a confiança da moça. Daí a razão, de não se identificar, e de usar um nome falso.
Dessarte, para auxiliá-lo em tal intento, Lindolfo contava com a ajuda de dois amigos, que freqüentavam o mesmo curso da moça, inclusive. Assim, diante desta facilidade, tinham fácil acesso aos comentários sobre a carta. E eram assim que estes o informavam sobre a receptividade da moça em relação as missivas.
Na sala de aula, algumas moças comentaram com Lizandra, que alguém, para escrever coisas tão lindas, era, provavelmente, um profundo conhecedor de literatura. Portanto, só poderia ser algum dos alunos do curso de letras.
No entanto, como fazer para descobrir? Apesar de o rapaz se identificar com Bruno, este nome, era relativamente comum por ali. Além do mais, não era absolutamente certo, que o autor das missivas, era ingresso no curso de letras.
Isso não garantia nada. Podia ser que, o referido autor, nem fosse aluno. Talvez um dos moradores da cidade, ou até mesmo, um dos funcionários da instituição.
Assim, diante de tão desanimador cenário, Lizandra não sabia por onde começar a procurar. Mas, para ao menos dizer que tentou descobrir, resolveu tentar localizar os Brunos que haviam no curso de letras.
Para seu desespero, só na classe em que estava, havia dois garotos com o referido nome. No entanto, pelo comportamento dos dois, dava para se notar que nenhum deles, apesar de cursar letras, apresentava pendor literário. Bagunceiros e indisciplinados, nem de longe fariam jus às mais belas qualidades de poetas.
Além do mais, Lizandra, nunca simpatizara com nenhum deles.
Por isso, ao chegar a aludida conclusão, sentiu um certo alívio.
Contudo, a despeito disso, resolveu insistir na busca. Mas, depois de semanas, tentando localizar e identificar o autor das cartas, desistiu. Resolveu deixar para lá.
Diante disso, os amigos informaram-no que Lizandra estava curiosa para saber quem era o autor das mensagens. Prestativos, disseram para Lindolfo que a garota o estava procurando.
Disseram que ela chegou a pensar até, que se tratava de algum conhecido. Segundo os dois, Lizandra procurou muito por ele, mas, em dado momento desistiu. Cansada, ela comentou com as amigas, que esperaria que ele se apresentasse. Bisbilhotando, acabaram por ouvir este comentário.

Luciana Celestino dos Santos
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SOCIEDADE ALTERNATIVA - CAPÍTULO 4

E assim, mesmo quando saíam acompanhados de suas namoradas, sempre combinavam de se encontrarem em algum lugar. E foi assim que assistiam juntos a filmes e peças de teatro. Sempre que podiam, também davam uma esticada em algum restaurante, ou mesmo em alguma festa que estivesse acontecendo.
Isso porque, de vez em quando, os universitários organizavam uma festa na cidade. Para tais comemorações, qualquer coisa servia como pretexto. O que lhes interessava era a comemoração, independente do motivo. Aliás, para boa parte dos estudantes universitários, viver longe dos olhares vigilantes dos pais, era o melhor que a cidade podia lhes oferecer.
Muitos deles, aliás, não estavam interessados no curso que freqüentavam. Vários deles só se interessaram em estudar em Arco Verde, para terem a liberdade de fazerem o que quiserem.
No entanto, deixemos as explicações de lado e continuemos a narrativa.
Assim, quando os quatro percebiam que havia uma festa acontecendo na cidade, aproveitavam para dançar um pouco e conhecer pessoas novas. Mesmo quando não podiam ficar muito tempo, não perdiam a oportunidade e entravam no salão da cidade, nem que fosse para ficar só um pouco.
Isso, em razão das moças, pois estas tinham hora certa para estar em casa. Por serem amigas, seus respectivos pais, não se incomodavam que não fossem acompanhadas por outra pessoa da família. Acreditavam que, por saírem acompanhadas, uma tomava conta da outra. Daí a desnecessidade de preocupação.
Contudo, não obstante a segurança de seus pais, as mesmas tinham hora certa para estar em casa. Tal cuidado era praxe na época.
Mas, a despeito de todos os cuidados, Dona Marta, Seu Roberto, Dona Cleide e Seu Reginaldo, estavam encantados com Maurício e Rodrigo, namorados de Adriane e Celeste, respectivamente.
Os pais das moças perceberam, assim que foram apresentados aos rapazes, que se tratavam de pessoas corretas. Não pareciam nem de longe com certos cafajestes, que usavam da qualificação de estudante universitário, para ficarem paquerando as moças que lá iam estudar.
Não, Maurício e Rodrigo eram diferentes. Sempre corretos com os pais de suas respectivas namoradas, nunca deram motivos para que estes pensassem o contrário.
E assim, ao longo de quase um ano e meio de namoro, Rodrigo resolveu acertar compromisso com Celeste. Por ser ainda universitário e estar prestes a ingressar no quarto ano do direito, não estava ainda, em condições de se casar. Precisava primeiramente, se formar e depois arrumar um emprego. Entretanto, como sentia-se muito apaixonado por Celeste, sentiu-se na obrigação de se comprometer mais seriamente.
Assim, ajustados, Rodrigo e Celeste decidiram que se casariam assim que o rapaz concluísse a faculdade e arranjasse um emprego.
Cientes de que no começo, encontrariam dificuldades, estavam certos de que podiam contar com Cleide e Reginaldo, os pais da moça.
Além do mais, Celeste, que também estudava, estava prestes a ingressar no terceiro ano do curso de letras, e diferente das moças da época, fazia questão de se formar. Desde que entrou na faculdade, começou a fazer planos. Pretendia, com o diploma na mão, especializar-se em literatura luso-brasileira e a partir daí, lecionar no colégio da cidade.
Desde criança, sonhava com o magistério, e desse sonho não abria mão.
Por isso, quando o assunto casamento veio a tona, tratou logo de deixar bem claro, que, de forma alguma, abandonaria a faculdade. Mesmo depois do casamento.
Ao ouvir isso, o rapaz ficou satisfeito.
Tal fato, por não ser comum na época, causou espanto a moça. Desconfiada, ela insistiu em dizer que não desistiria do curso, por nenhum motivo.
No que Rodrigo, manteve sua posição.
Diante disso, só coube a Celeste, concordar com o compromisso e organizar um almoço de noivado, no qual o rapaz, pessoalmente, pediria sua mão.
Participando da comemoração, não poderia faltar os amigos Maurício e Adriane, bem como os pais dela, Dona Marta e Seu Roberto.
Como era de se esperar, Rodrigo se atrapalhou todo. Embora tivesse ensaiado durante várias semanas, no momento em que teve de fazer o pedido, por estar muito nervoso, acabou se atrapalhando e perguntando:
-- Posso me casar com sua filha?
Todavia, apesar de não ser esta a frase mais adequada a um pedido de noivado, Seu Reginaldo, assentiu concordando. Por fim, disse brincando:
-- Muito embora eu não saiba por que a pressa em se casar com minha filha... Pode sim, pode se casar com Celeste. Eu só espero que você me dê tempo suficiente para ao menos, ela arrumar um traje adequado para a ocasião.
Ao ouvir isso, todos riram. Inclusive o rapaz, que depois do pedido, ficou mais calmo.
Após o pedido, eis que surge Dona Cleide, trazendo em uma bandeja de prata, com oito taças com champagne, para comemorar o pedido.
E assim, com uma taça na mão, todos passaram a brindar, comemorando o pedido e desejando sinceramente, que o enlace se desse em breve.
Contudo os noivos, ao perceberem a agitação em torno do casamento, trataram logo de explicar, que o mesmo só se realizaria depois que Rodrigo se formasse.
Muito embora estivessem ansiosos para que o casamento se realizasse, sabiam que isso demoraria um pouco para ocorrer.
Desta forma, depois dos brindes e dos devidos esclarecimentos, foram todos para a copa, e se deliciaram com o almoço caprichado preparado por Dona Cleide e sua filha.
Estava tudo muito bom.
Tão bom, que Rodrigo, ao se despedir da agora noiva, comentou:
-- Desculpe. Eu acabei me atrapalhando na hora de fazer o pedido. Estraguei tudo, não foi?
Compreensiva, Celeste, disse:
-- Não tem problema. Você não estragou tudo. Apesar do tropeço, você foi ótimo.
Ao ouvir isso, o rapaz sentiu-se aliviado. Agradecido com a generosidade de Celeste, foi logo lhe pedindo um beijo.
E assim, com um beijo, despediu-se da moça.
Ao retornar ao Conjunto Residencial Arco Verde, encontrou Lindolfo de saída.
Gentil, foi logo cumprimentando o amigo, que disse:
-- Soube que você está para noivar com Celeste, meus parabéns. – comentou efusivo.
-- Sim. Mas eu já estou noivo. Acabei de pedir a mão dela, há algumas horas.
Ao perceber que cometera uma gafe, Lindolfo, procurando se desculpar, comentou:
-- Me desculpe. Eu realmente não sabia que o pedido ia ser hoje. Se fosse mais atento, eu poderia ter te acompanhado.
-- Não tem problema. O Maurício me fez companhia, assim como Adriane. Ótimas pessoas por sinal. Sempre presentes quando se precisa.
Sentindo-se diretamente atingido pelas palavras de Rodrigo, Lindolfo desculpou-se novamente, e saiu.
Realmente, Lindolfo havia se afastado dos amigos. Depois que se desentenderam por conta de uma briguinha boba, nunca mais foram tão próximos como antes.
Quanto mais o tempo foi passando, mais e mais foram se distanciando. Principalmente quando Lindolfo arrumou uma namorada.
Isso porque, enquanto namorou a garota, esqueceu-se completamente dos amigos.
Aliás, o fato dele ter uma garota, só serviu para que surgissem atritos entre eles.
Folgado como era, diversas vezes, esquecendo-se que o apartamento não era só dele, chamava a namorada para para dormir em seu quarto. Fato este extremamente incômodo para os rapazes, já que eles sabiam qual era a finalidade disso.
Constrangidos, não sabiam se cumprimentavam a moça, quando esta resolvia ficar para tomar café, ou simplesmente ficavam calados.
Em dado momento, a freqüência das estadas da moça tornou-se tão inconveniente, que Maurício e Rodrigo resolveram alertar o amigo. Seu comportamento em relação a eles, já estava beirando o insuportável. Isto é, há muito tempo já deixara de ser simplesmente, inconveniente.
Por isso, resolveram dar um ultimato. Ou Lindolfo resolvia a situação, ou os dois sairiam do apartamento.
Como já estavam enturmados, poderiam muito bem, sair de lá e irem morar com os novos colegas. Aliás, alguns deles já os haviam convidado para morar com eles. Cientes de que a situação de ambos não era boa, os colegas insistiam para que deixassem Lindolfo de lado.
Mas gentis recusavam. Alegavam que era só uma fase do moço.
Contudo, a atitude do amigo, nos últimos tempos, se tornara extremamente inconveniente. Já estavam saturados da convivência com o rapaz.
Lindolfo era muito temperamental e instável. Para agravar, não se importava nem um pouco se suas atitudes incomodavam os amigos.
Assim, diante do quadro instalado, não restou a Lindolfo senão, arrumar um outro lugar para namorar.
Entretanto, depois de alguns meses, rompeu com a então namorada e passou a ter alguns casos, com algumas estudantes da cidade.
Diversas vezes, Rodrigo, Maurício, Tiago e Roberto, avistaram Lindolfo com diferentes garotas.
Muitas vezes, em menos de um mês, Lindolfo já havia tido duas ou três namoradas.
Contudo, depois do que acontecera com uma de suas garotas, nunca mais levou uma delas para casa.
Como não tinha condições de manter o apartamento sozinho, não podia se indispor mais ainda com os amigos. Por isso, rapidamente, acatou as exigências dos companheiros de apartamento, e passou a levar suas namoradas para outro lugar.
No entanto, a despeito de uma atitude mais correta, ao menos com os amigos, nunca mais a amizade voltou a ser o que era antes.
Desapontados, Maurício e Rodrigo, deixaram de ter Lindolfo, como amigo.
Por isso a convivência, depois de tanta desconsideração para com eles, reservou-se apenas àquele pequeno apartamento.
Isso por que, sempre que podiam, depois das aulas, aproveitavam as tardes, estudando, se não na biblioteca da universidade, no apartamento dos amigos então.
Ademais, quando encerravam seus estudos diários, antes de irem para casa, aproveitavam para passar, cada qual, passava na casa de sua namorada. E assim ficavam alguns minutos conversando.
Geralmente conversavam e trocavam idéias sobre o dia que passou, e como tinham estado. Aproveitavam também para combinar um passeio mais tarde. E assim, quase todos os dias, saíam para passear.
Nesses passeios, aproveitavam para passear pela cidade, caminhar. Conversavam, e depois de três horas, levavam as moças para casa.
Moças essas, que se conheciam desde crianças. Portanto eram amigas de longa data.
Confidentes uma da outra, logo que uma arrumou namorado, foi logo contar para a outra.
Fato este que, muito contribuiu para que a amiga solteira, logo arrumasse namorado. Isso por que, devido exigências paternas, quando uma filha saía, alguém deveria ir junto para vigiá-la. E assim, tendo a amiga da namorada como vigia, o namorado, percebendo que não teria sossego, tratou logo de convidar um amigo, para fazer companhia nos passeios.
E assim, o amigo, ao conhecer melhor a vigia, foi logo se interessando pela moça e logo passou a namorar firme com esta.
Assim, depois de algum tempo, passou a ser dois casais de namorados. O que facilitou sobremaneira os encontros e passeios de todos.
Diante disso, Celeste, ao combinar o noivado com Rodrigo, foi logo contar a amiga a novidade. Feliz que estava, tinha que contar a alguém e foi a Adriane que contou.
Por esta razão, ela e sua família estiveram presentes no almoço de noivado.
Ademais, ao se certificarem do compromisso ajustado, Adriane foi a primeira a se oferecer para ajudar a amiga a montar o enxoval.
Mesmo estando o referido enxoval quase completo, Adriane, bem como Dona Cleide e Seu Reginaldo, estes foram logo providenciando para que Celeste incrementasse seu enxoval com mais algumas peças.
Ademais, Dona Cleide cismou que as peças pertencentes aos vários jogos de lençol que a moça guardava, deviam ser todas bordadas com as inicias dos dois. Por isso, animada com a idéia, passava tardes inteiras bordando.
Dessarte, precisavam ainda, comprar louças e os demais objetos que guarneceriam a casa.
A respeito disso, Celeste, ao perceber o extremo interesse que seu noivado provocara em sua mãe e na amiga, imediatamente advertiu-as de que o casamento ainda demoraria para acontecer. Por isso, não deveria ter pressa. Afinal de contas, teria tempo de sobra para fazer tudo com calma.
Mas, independente das argumentações de Celeste, as duas pareciam indiferentes as mesmas. Parecia até que, era o casamento das duas.
Realmente, dada a animação em que preparavam tudo, nem parecia que era Celeste quem ia se casar. Muito pelo contrário.
Curiosamente, aliás, sempre que sua mãe, ou mesmo sua amiga, a acompanhavam em alguma loja, a vendedora, percebendo a animação delas, sempre achava que estas, é que iam se casar.

Luciana Celestino dos Santos
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SOCIEDADE ALTERNATIVA - CAPÍTULO 3

Cuidadosos, não deixaram que um só detalhe os escapasse. Queriam organizar uma festa memorável.
E assim foi.
A festa ocorreu, magnífica. Tão bem feita que mais parecia um baile de formatura. A turma da universidade compareceu em peso.
Todos estavam elegantemente trajados e preparados para a noite de comemorações.
Rodrigo, Maurício e Lindolfo como sempre estavam reunidos.
Apesar da inesperada apatia de Lindolfo, o mesmo procurou se divertir na festa. Dançou com algumas garotas, e por algumas horas, esqueceu-se da garota da praia.
Contudo, depois de algumas bebidas e de muito dançar, acabou esbarrando em uma moça.
Coincidentemente, a moça era Lizandra, a morena alta que havia lhe chamado a atenção na praia.
Surpreso com o encontro inesperado, Lindolfo tentou, de todas as formas possíveis, se aproximar da moça. No meio da confusão, tentou trocar algumas palavras com Lizandra, mas não conseguiu. Suas amigas a puxaram pelo braço, como que convidando-a para dançar com um rapaz que aproximara do grupo.
Tal fato não o desanimou.
Confidenciou aos amigos que, assim, difícil, seria mais interessante. Disse ainda, que não gostava quando tudo acontecia rápido demais. Afinal, tudo é que é muito fácil de se conseguir, perde a graça muito rápido.
Por conta disso, continuou festejando. Tanto, que ao término da festa, estava completamente bêbado. Tão bêbado, que mal se agüentava em pé. Precisou da ajuda dos amigos que o levaram carregado, até a residência onde moravam.
Ao lá chegar, foi só deitar na cama que dormiu.
Dormiu o restante da madrugada, só acordando, a tarde.
Ao acordar, sentiu sua cabeça pesar. Estava com muita dor de cabeça. Preocupado, tratou de se levantar.
Ao se dirigir a cozinha, seus amigos, ao se verem seu estado lastimável, só comentaram:
-- Ressaca brava, heim?
-- Também, encheu o caneco.
-- Ah, eu estou com muita dor de cabeça. Tem algum analgésico nesta casa? – perguntou Lindolfo.
-- Não. – respondeu Maurício.
-- Nem é bom misturar remédio com álcool. – emendou Rodrigo.
-- Está bem. E o que eu faço com minha dor de cabeça?
-- Deite-se que nós vamos lhe fazer um café. – respondeu Maurício.
Lindolfo, tentou recusar o café, mas seus amigos o intimaram a beber. O que teve que fazer.
Nisso, voltou a se deitar e dormiu por mais algumas horas.
Quando acordou, lembrou-se que havia estado em uma festa no dia anterior, e quis saber o que havia acontecido.
Espantados, seus amigos logo lhe perguntaram, se havia esquecido do que acontecera na festa.
Lindolfo então, assentiu com a cabeça. Não se lembrava de muita coisa.
Afirmou, que só tinha lembrança da festa até o momento em que encontrou Lizandra, e mais do que depressa, voltou a beber.
Com um certo esforço de memória, conseguiu lembrar-se de que continuou dançando.
Foi então que seus amigos disseram-lhe que havia se aproximado, bêbado de Lizandra. Tentou tirá-la para dançar, no que foi impedido pelo rapaz que estava com ela.
Mesmo sendo afastado pelo sujeito, continuou insistindo. Queria por que queria tirá-la para dançar. Até que, num momento de distração do rapaz, Lindolfo conseguiu puxá-la pelo braço e levá-la até a pista de dança.
No entanto, mais do que depressa, o rapaz, vindo no encalço dos dois, empurrou-lhe e puxou a moça de volta.
Maurício contou ainda, que ele havia tentado agredir o rapaz que a acompanhava, no que foi impedido por Rodrigo e ele.
Envergonhado, ao ouvir as palavras dos amigos, Lindolfo não podia acreditar no que fizera. Como pôde ser tão tolo? Nunca havia brigado antes, por nenhuma garota.
No que Rodrigo e Maurício retrucaram:
-- Tem sempre uma primeira vez para tudo.
Mas, mal-humorado, Lindolfo disse que não havia primeira vez para uma idiotice dessas. Por isso prometeu, que nunca mais iria se expor ao ridículo por causa de uma garota.
Desconfiados dessas palavras, Maurício e Rodrigo foram irônicos aos concordarem com o amigo. Realmente, ele cumpriria o que dissera.
Mas isso, só serviu para deixar Lindolfo ainda mais irritado.
De tão irritado, ele virou as costas para os amigos e se trancou no quarto. Não quis sair nem para jantar.
E assim foi. Durante três dias, Lindolfo não conversou com os amigos. Só os via todos os dias, por que isso seria impossível de se evitar. Com isso, por esta razão, procurava passar o maior tempo possível na rua. Não queria ficar em casa para não ter o desprazer de vê-los, mais do que o necessário.
E assim, quando acabava a aula, se dirigia a biblioteca, e ficava lá estudando, ou lendo alguma coisa que o interessasse. Mais tarde, passava rapidamente em casa, esquentava sua comida, almoçava, e depois, saía novamente. Durante uma semana, freqüentou a praia, e fez alguns passeios pela cidade.
Nesses passeios, aproveitava para paquerar um pouco.
Não perdia a oportunidade.
E assim, passou a se afastar dos amigos.
Mesmo quando fizeram as pazes, Lindolfo, não ficava mais tanto tempo junto com eles. Como havia arrumado uma namorada, passou a se dividir entre a universidade, ela e seus novos amigos. Maurício e Rodrigo ficaram de lado.
No entanto, mesmo eles, depois de algum tempo, acabaram arrumando namoradas também, e deixaram de dar importância as atitudes de Lindolfo.
Enturmados, freqüentemente passavam as tardes em casa de amigos estudando e mais tarde, passeavam pela cidade. Assim como Lindolfo, paqueravam um pouco.
Mas isso foi até arrumarem namoradas.
Depois de estarem devidamente comprometidos, Maurício e Rodrigo deixaram de paquerarem as moças que moravam na cidade. Por estarem comprometidos, seus respectivos interesses passaram a ser outros. Devidamente acompanhados, adoravam sair em casal.

Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

SOCIEDADE ALTERNATIVA - CAPÍTULO 2

Novamente, as aulas. A correria voltou.
Apressados, os três rapazes tomaram seu café da manhã, e sem tempo para lavar a louça, foram para a faculdade.
Ao chegarem foram logo cumprimentados por alguns conhecidos. Tratavam-se de algumas das pessoas que participaram da festa na praia. Por esta razão, os três rapazes com toda certeza, poderiam afirmar que já estavam, mais que enturmados. Estavam conhecendo muita gente por isso.
Entretanto, apesar de toda a animação, e do fato de passarem a serem praticamente a sensação da faculdade, precisavam se preparar, pois logo chegariam as provas. O primeiro sintoma disto estava refletido do no fato de os professores passarem inúmeros trabalhos para os eles fazerem.
Com isso, aproveitando a oportunidade, os jovens passaram a organizar grupos de estudos. Assim, passariam as tardes trocando idéias com os novos amigos e poderiam fazer juntos, os trabalhos escolares.
Todas as tardes então, as bibliotecas dos cursos de engenharia, direito, letras e outras disciplinas, ficavam inteiramente tomadas pelos alunos. Ás vezes, também, se organizavam pequenos grupos para estudar em casa.
E nessa fase de extrema dedicação aos estudos, boa parte dos alunos permaneceu durante dias.
Com isso, no pequeno apartamento onde moravam Lindolfo, Maurício e Rodrigo, os dois últimos, convidaram Tiago e Roberto, para lá estudarem. Enquanto estudavam para as provas, o tempo passava, passava. Até que Rodrigo teve uma idéia. Já que estavam a tanto tempo estudando para as provas, que tal um tomar a lição do outro?
-- Nada mal. – disseram os rapazes.
E assim, começaram a fazer. Enquanto um perguntava, os outros respondiam. Depois quem perguntou era questionado.
Assim ao final das quase três semanas de estudos, todos se sentiam preparados.
De formas que, quando finalmente chegaram as provas, estavam prontos.
Explicando. Na Universidade Arco Verde, as provas eram realizadas quase na mesma época em todos os cursos. O diretor da instituição entendia que, dessa maneira seria mais produtivo para os alunos, se preparar, de uma só vez, para todas as provas. Para os professores, também era benéfico, pois isso permitia entrega das notas, dentro de um determinado prazo.
Com isso, enquanto as provas iam sendo realizadas, se passavam os dias.
Dia após dia. Horas correndo, e a pressa para que esse período passasse. Isso porque, só depois das provas é que eles poderiam voltar a freqüentar os bares da região, os poucos restaurantes que lá existiam, a praia, o único cinema da cidade, e até, organizar algumas festas no salão de bailes da cidade.
Para alguns alunos ou alunas, seria ainda, a oportunidade de passear pela praça da cidade, e caminhar. Ver e ser visto. Outros, mais abastados, faziam compras nas pequenas lojinhas da cidade.
Havia várias delas na cidade. Vendiam uma variedade de produtos, roupas, lembrancinhas, cosméticos, artigos de papelaria. Pelo fato de ser a região, um rico pólo de cultura, havia, além das lojas tradicionais, duas livrarias que vendiam livros para as duas importantes instituições da cidade.
Arco Verde, sempre foi tradicionalmente conhecida pelo seu atrativo educacional. Por esta razão, recentemente, seriam instalados na cidade, mais um cinema, além de um teatro.
A cidade possuía ainda, um posto médico, duas farmácias, três mercearias, um açougue, um mercado, um posto policial, um salão de cabeleireiro, algumas lojas, e duas instituições bancárias. Bem como uma linda igreja datada do período colonial, em frente a uma bela praça, com coreto e bancos, para que as pessoas pudessem se sentar.
Havia também, como em toda a cidade, residentes, moradores que nasceram por lá. Estes moravam ao redor da cidade em casinhas de padrão médio, muito bonitas e coloridas.
Principal característica da cidade, as cores de suas construções.
A cidade também possuía Prefeitura, que estava instalada num prédio em estilo neo-clássico, ao lado do Fórum, instalado em uma construção colonial.
Escritórios de advogados, engenheiros, contadores, entre outras profissões, existiam em pequeno número, dada as dimensões da cidade e o fato de que a maioria dos estudantes que freqüentavam a faculdade, não permanecia na cidade, somente lá residindo durante os anos de curso.
E ainda, não haviam clubes em Arco Verde, mas havia o Centro Esportivo da Universidade, e a área de educação física da Escola Afonso Pena, esta no entanto, só freqüentada por alunos.
Pousada, só havia uma na cidade, justamente para os turistas em época de temporada. Já pensões de estudantes, haviam muitas, assim como conjuntos habitacionais, não só para os estudantes, como para os novos habitantes da cidade.
Assim, a cidade além do Residencial Arco Verde, possuía outros dois residenciais, igualmente imponentes. Bonitos, bem cuidados. Possuíam praça, alguns jardins, garagem, portaria, playground. Tudo que tinha um residencial, tinha nos outros.
Enfim, a cidade era uma eterna festa para os estudantes. Apesar de pequena, a cidade possuía atrativos para os estudantes. Desde que, é claro, estes possuíssem algum dinheiro para se divertirem.
Em assim sendo, o que os estudantes queriam, mais do que qualquer outra coisa, era voltar a se divertir. Como já havia passado algum tempo, desde o começo das aulas, os calouros, estudantes recém-chegados a faculdade, deixaram de serem perseguidos pelos estudantes veteranos, que já estavam a mais tempo. Agora era só aproveitar.
Principalmente para Lindolfo, Maurício e Rodrigo, que penaram um pouco durante os primeiros meses nas mãos dos alunos mais antigos. Só depois da confraternização da praia, é que puderam ficar um pouco mais tranqüilos, pois finalmente estavam se enturmando.
Agora, passado algum tempo da festa, os três conheceram muita gente dentro da universidade, e por esta razão, depois das provas já estavam combinando uma nova festa.
Só que dessa vez, a festa não seria uma simples festinha improvisada na praia. Todos estavam pensando em algo mais elaborado, como por exemplo, alugar o salão da cidade, e lá realizar uma festa em comemoração ao término das provas.
Diante disso, alguém sugeriu que a festa fosse em boas vindas para Lindolfo, Maurício e Rodrigo.
E isso já estava quase certo, quando então, sugeriram uma nova idéia.
Por que não, uma festa para desejar boas vindas aos calouros? Até porque, Lindolfo e os rapazes que organizaram a festa anterior, além de serem grandes camaradas, eram também, calouros. O tema seria também para eles.
Nisso todos aplaudiram a idéia e concordaram, a festa seria uma celebração de boas vindas aos calouros.
E assim, o tempo foi passando. Mais lento do que a maioria gostaria, mas enfim as provas terminaram.
Com isso, poderiam finalmente, colocar em prática o plano de organizar uma festa para os calouros.
Primeiramente, foram pesquisar o valor do aluguel do salão. Diante do valor, apresentaram propostas de pagamento. Todas foram passadas aos estudantes que então fizeram um planejamento. Queriam a festa, só que não tinham muito dinheiro para investir nela.
Assim, surgiu a idéia de um rateio. Todos os interessados pagariam uma determinada quantia para poderem participar da festa.
Nisso, passaram várias listas nas salas de aula, para que todos os interessados colocassem seus nomes e assim se tivesse uma idéia de quantas pessoas participariam da festa.
Ao final das aulas, alguns alunos passaram recolhendo as listas preenchidas. O interesse era enorme.
Os mentores da festa, ao constatarem que muita gente gostaria de participar dela, calcularam o valor que seria necessário para o aluguel do salão e demais apetrechos da festa. Para tanto, os rapazes precisaram pedir ajuda das garotas, que apresentaram uma média de quanto cada pessoa poderia consumir.
De posse dessa informação, todos foram logo se informar com as quituteiras da região sobre o valor dos comes e bebes. Com isso, chegaram a um valor aproximado, de quanto cada pessoa poderia gastar.
E ainda, como o próprio salão oferecia a possibilidade da contratação de músicos, o preço de tal facilidade já estava embutido no preço do aluguel.
Assim, somados todos esses valores, dividiram os mesmos, pelo número de pessoas que estavam interessadas em participar da festa. Diante da possibilidade de algumas desistências, fizeram o cálculo sobre um número mínimo de pessoas.
Mesmo assim, verificaram que o valor a ser cobrado como entrada não ficaria pesado. Isso não impediria portanto, que todos os que quisessem, participassem da festa.
Com isso, com os números em mãos, os organizadores da festa passaram o valor dos convites aos interessados. Nova surpresa. Praticamente, não houve desistências. Todos estavam animados com a idéia de festejar.
Em virtude disso, iniciaram-se os preparativos.

Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

SOCIEDADE ALTERNATIVA - CAPÍTULO 1

"Viva, viva, viva a sociedade alternativa
Viva, viva, viva a sociedade alternativa...

Se eu quero e você quer
Tomar banho de chapéu
Ou esperar papai noel
Ou discutir Carlos Gardel

Então vá
Faz o que tu queres
Pois é tudo da lei, da lei

Viva, viva, viva a sociedade alternativa
Viva, viva, viva a sociedade alternativa ..."

(Sociedade Alternativa – Raul Seixas/Paulo Coelho)

Dez e meia.
Hora do intervalo da turma da universidade.
Durante os próximos quinze minutos, poderiam conversar com os colegas, trocar idéias e até tomar um café.
No pátio da faculdade, boa parte dos alunos estavam reunidos.
Nessas horas, quando todo mundo se aproximava para conversar, é que se formava uma barulheira que se podia ouvir de longe.
Era 1952. Rodrigo, Maurício e Lindolfo, em plena quarta-feira, já traçavam planos para o fim de semana. Os três já estavam na cidade há quase dois meses. No entanto ainda não conheciam muita gente. Por serem novos na faculdade, estavam passando por uma certa dificuldade de adaptação, mas confiantes, sabiam que poderiam superar esta fase.
Para tanto, precisavam aproveitar as folgas para passearem e curtirem um pouco a praia da cidade. Lá poderiam conhecer gente nova e quem sabe, encontrar com alguém que estudasse na universidade com eles.
Nisso, enquanto aproveitavam o intervalo, bateu o sinal indicando que já era hora de, entrar novamente na classe e assistir o restante das aulas. E assim, todas as turmas entraram em suas salas e a universidade retornou ao silêncio costumeiro.
Depois das aulas, novamente o burburinho.
Nessa hora, todos os alunos da universidade, ou pelo menos a grande maioria deles, se reuniam em frente ao portão principal, e lá ficavam conversando.
Alguns ficavam esperando uma carona para voltarem para casa, já que alguns deles eram realmente moradores do lugar. Outros aguardavam os amigos saírem de suas classes para voltarem de carona com eles, posto que moravam a uma certa distância dali.
Alguns afortunados, moravam a poucas quadras da instituição, em um conjunto habitacional construído especialmente para os estudantes que vinham de fora. Chamava-se Conjunto Residencial Arco Verde, uma clara referência ao nome da cidade.
Pois então, os poucos afortunados que lá moravam, conseguiam, com uma caminhada de cerca de quinze minutos chegar em suas casas. Não dependiam de qualquer sistema de transporte para irem até a universidade. Sortudos.
Nesse rol de privilegiados, se encontravam os três rapazes que dividiam um pequeno apartamento neste residencial. Apartamento este que consistia em dois quartos, uma cozinha conjugada com uma área de serviço que ficava ao fundo, uma pequena copa, uma sala e um banheiro. E, apesar de só morarem homens no lugar, tratava-se de uma residência limpa e arrumada. Não possuía o requinte de uma decoração bem feita, mas nem por isso, parecia um pardieiro.
Aliás, nesse quesito, Maurício, Rodrigo e Lindolfo, eram bastante cuidadosos. Apesar da preguiça dos três em cuidar da casa, sempre tiveram o cuidado de deixá-la limpa. Assim, desde que chegaram em Arco Verde, passaram boas tardes limpando o apartamento e mobiliando-o com os móveis comprados em sua cidade natal. Visto que combinaram juntos a ida para a cidade.
Assim, conforme o exposto, pode-se concluir realmente, que os três rapazes eram privilegiados. Podiam se quisessem, acordar mais tarde. Como moravam perto da universidade, não precisavam madrugar para estudar de manhã, único horário em que a instituição funcionava.
No entanto, nem sempre, podiam se dar o luxo de acordar um pouco mais tarde.
Isso por que, toda manhã, um deles ía até a padaria comprar os pães para o café. Enquanto isso, outro preparava a mesa e depois, o último deles, que não havia feito nada, lavava a louça.
Feito isso, os três rapazes tratavam de pegar seus respectivos materiais e sair. Não se esquecendo de fechar a porta. E caminhar os tais quinze minutos até a faculdade.
Ao chegarem lá, ficavam ainda conversando por alguns minutos até bater o sinal anunciando o início das aulas e aí, eles então, tinham que se separar.
Maurício e Rodrigo faziam o curso de direito. Já Lindolfo, freqüentava o curso de engenharia.
Por isso, dada situação deles, pretendiam fazer novos amigos. Quanto a isso, gostariam de fazer logo novas amizades, para que assim, pudessem conviver bem com os outros universitários.
Com isso, finalmente, depois de alguns meses, os rapazes conseguiram formar uma turma para ir no já comentado passeio que eles pretendiam fazer no fim de semana. Tanto na turma de Lindolfo, quanto na turma de Maurício e Rodrigo, apareceram interessados.
Como inesperadamente, apareceram muitos interessados, inclusive de outras turmas e cursos, os três rapazes, pensaram então, em fazer uma festa, uma espécie de pequenique na praia. Então, durante o resto da semana, os três combinaram com os demais interessados sobre quem levaria as bebidas, as comidas, e organizaria decoração da festa.
Depois da divisão de tarefas feita, ficou ajustado que, alguns dos rapazes levariam as bebidas, outros levariam as comidas juntamente com algumas mulheres, e ainda entre as mulheres, as que não se habilitaram em levar a comida, estas se comprometeram em organizar o que fosse levado.
Com isso, em menos de um dia, praticamente, foi organizada uma confraternização com os jovens estudantes do lugar.
Ademais, no dia marcado, todos apareceram em peso na praia. Consigo levavam os comes e bebes, bem como outros apetrechos de praia, como bronzeadores, cadeiras de praia, guarda-sol, toalhas, etc. Alguns levaram ainda, umas mesas improvisadas para guardar as comidas.
O mar estava calmo, o dia estava quente, e as pessoas pareciam animadas para curtir a praia.
Todos procuraram se sentar próximos uns dos outros. Conversaram entre si sobre diversos assuntos.
Maurício e Rodrigo comentaram sobre o fascínio que sentiam pelo curso de direito. Já Lindolfo, mais prático, disse que escolheu o curso de engenharia, para poder trabalhar com o que realmente importava, segundo seu ponto de vista.
Nesse ponto, tanto Maurício quanto Rodrigo discordaram do amigo dizendo que o direito também visava coisas concretas. Que este poderia ser usado até para se acabarem com injustiças.
No que Lindolfo, severamente os retaliou. Para ele, as injustiças continuariam existindo enquanto houvesse um homem na face da terra. Por isso, por causa do homem, é que não tinha como se acabar com elas.
Diante de tão duros argumentos, Maurício e Rodrigo passaram a criticá-lo.
Como os diálogos ía se tornando cada vez mais acalorados, a turma do deixa-disso, tratou de amenizar as coisas. Disseram que a discussão não levaria a nada. Por isso, passaram a falar de outros assuntos. Reclamaram dos professores, das aulas. Falaram da sensação que tinham em estar tão longe de casa. Mas, pelo que se podia perceber, a grande maioria deles, estava gostando de viver longe dos pais. Estavam curtindo a recém conquistada liberdade.
Muitos preocupados, já pensavam em uma forma de se manterem por lá, pois não queriam voltar para a casa dos pais.
Preocupação esta, em muitos casos, salutar, posto que, muitos dos que ali estavam, em menos de dois anos, já estariam formados.
Mas é claro, que, diante do sol convidativo, eles deixaram de lado suas preocupações e caíram no mar.
As mulheres, além de se banharem no mar, aproveitando o belo dia de sol, trataram de se deitar em suas toalhas de praia, e assim, se bronzear.
Mais tarde, quando sentiram fome, abriram suas cestas com comidas e organizando tudo em pequenas mesinhas de madeira, expuseram a comida para assim todos pudessem se servir.
E assim, todos se dirigiram as mesinhas improvisadas e esbaldaram com os comes e bebes trazidos.
Depois do almoço improvisado, algumas moças foram caminhar na beira do mar. Enquanto caminhavam, apreciavam a paisagem. E mais ainda, faziam a alegria de alguns dos rapazes que por lá ficaram admirando-as.
Dentre as moças que estavam na passeio, se encontrava Lizandra. Morena clara, cabelos lisos, alta. Por seu porte elegante, chamou a atenção de Lindolfo, que logo quis conhecê-la.
Por esta razão, durante a semana seguinte, Lindolfo perguntou a todo mundo que reconheceu por estar no passeio, quem era aquela morena alta, que caminhou na beira da praia junto a outras colegas.
No entanto, em virtude da grande quantidade de pessoas no passeio, poucos conseguiram se lembrar de quem se tratava. Somente no final da semana, é que finalmente Lindolfo conseguiu alguma informação sobre a garota que lhe chamou a atenção.
Foi quando descobriu que ela se chamava Lizandra e que cursava o primeiro ano do curso de letras.
Ao descobrir isso, Lindolfo agradeceu a informação e se dirigiu até o campus onde ficava o curso de letras. No entanto, não logrou êxito. A jovem havia faltado naquele dia.
Ademais, por estar terminando o horário do intervalo, teve que se apressar para poder chegar em tempo na classe, sob pena de não poder assistir a aula. Se perdesse essa aula, teria que ficar escondido no banheiro, pois se o inspetor de alunos o visse fora da classe, o encaminharia para a direção, e que por isso, poderia sofrer uma pena de suspensão.
Então, tratou logo de entrar na sala e sentar em sua carteira. Conforme a aula começou, não conseguiu se concentrar e prestar atenção nas explicações do professor. Só pensava na morena andando na beira da praia com seu maiô branco e chapéu de palha enfeitado com um lenço de poás. Para ele, a combinação perfeita de beleza e elegância.
E nisso, o tempo foi passando, até que veio o sinal avisar que as aulas do dia, haviam terminado.
Novamente, o burburinho.
A confusão de alunos saindo dos campus da faculdade.
Sexta-feira, um fim de semana inteiro pela frente. Todos pareciam cheios de planos para os dois dias vindouros.
Para os três rapazes seria a oportunidade perfeita de curtirem uma praia. Principalmente para Lindolfo, que esperava que a moça novamente aparecesse por lá.
Como de costume, prepararam os apetrechos para curtir a praia. Só que desta vez, não havia a multidão de antes. Só iriam os três para a praia.
Ao lá chegar, encontraram alguns conhecidos da festa da semana anterior, que simpáticos, foram logo puxando assunto.
-- Que beleza de festa, a da semana passada.
-- É verdade, praticamente todo mundo que está na universidade estava presente. Até eu que estudo aqui há quase três anos, conheci muita gente nova.
-- É impressionante como a gente conhece pouco o lugar onde mora.
-- Concordo. – disse Lindolfo.
-- E, vocês, estão gostando da cidade? – perguntou um deles, para Maurício e Rodrigo.
-- Estamos nos adaptando. – respondeu Rodrigo.
-- Mas já deu pra perceber que é uma bela cidade. – emendou Maurício.
-- É uma típica cidade do interior, apesar da universidade.
-- Essa cidade tem também uma escola, não tem? – perguntou Rodrigo.
-- Tem sim, é uma bela escola. Tem pré-escola, curso primário, ginásio e colegial.
-- Interessante. Quer dizer então, que tem muita gente que mora aqui que acaba estudando na universidade. Legal. – disse Rodrigo.
-- Sim, sem contar que é uma ótima instituição de ensino, segundo ouvi falar.
E assim, ficaram conversando ainda durante algum tempo. Depois todos caíram no mar e passaram toda a tarde ali, se divertindo.
Ao retornarem para casa, notaram que Lindolfo estava um pouco aborrecido.
Tentaram conversar com ele, mas não adiantou. Não quis dizer o que o irritou. Os amigos insistiram em saber. Insistiram muito. Tanto que irritado, Lindolfo se trancou num dos quartos da casa, para não ter mais que dar satisfações.
Depois, Maurício e Rodrigo, que ficaram arrumando os apetrechos da praia e cuidando da cozinha, preparando o jantar, finalmente se deram conta do que era.
Como o amigo ficara a semana toda tentando descobrir quem era a tal moça da praia, chegaram a conclusão seguinte. Ele esperava encontrá-la na praia. Daí a insistência em sair um pouco mais tarde. Talvez ele tenha pensado que, se ela saiu para caminhar na praia, já ao final da tarde, era porque talvez tivesse o hábito de fazê-lo sempre.
No entanto, não foi isso que aconteceu. A moça não apareceu.
Diante desta conclusão portanto, pararam de comentar o assunto. Às sete horas, trataram de chamá-lo para jantar.
Assim, enquanto comiam o jantar, Maurício e Rodrigo comentavam sobre como tinha sido a semana. E que no dia seguinte, começariam a fazer um trabalho que seria entregue dali a poucos dias.
Nisso, Lindolfo, nem abriu a boca. Ele que era tão falante, permaneceu durante todo o jantar em silêncio. Ao terminar o jantar, como era sua vez de lavar a louça, simplesmente se levantou e foi até a cozinha. Lavou toda a louça do jantar e depois, novamente, trancou-se em seu quarto.
Preocupados, os dois amigos, o convidaram para sair. No que ele secamente respondeu:
-- Não estou com vontade.
Diante da resposta, os dois não insistiram mais. Simplesmente se arrumaram e foram dar uma volta pelo Conjunto Residencial. Como não tinham o que fazer, foram matar o tempo com um passeio até chegar a hora de irem dormir.
Andaram, andaram. Passaram por quase todos os prédios do residencial. O curioso é que cada um deles era de um cor diferente. Eram prédios de no máximo cinco andares com seis apartamentos por andar. Também possuíam, diferentes estilos arquitetônicos. Mas ainda, assim, possuíam uma certa unidade. Muito embora o estilo de cada um, tornasse o local pitoresco e agradável. Havia algumas plantas por entre as construções. Muitas jardineiras floridas nas janelas dos apartamentos, e em alguns lugares, perto dos estacionamentos, roseirais, enfeitavam a área externa do local.
No centro do residencial, havia uma espécie de praça, com uma pequena fonte, onde um leão de pedra, entalhado em azulejos portugueses azuis, esguichava água. Nesse lugar havia ainda, mais flores, e dois bancos de praça, pintados de branco. Tudo para lembrar um pouco, antigas construções européias.
E exatamente neste local, se encontravam os rapazes neste momento. Como queriam conhecer melhor o Residencial, caminharam mais um pouco. Antes de chegar na portaria em estilo neo-clássico, em frente do imenso portão de entrada que se abria em duas colunas gregas, passaram ao lado do play-ground das crianças.
Na hora de voltar, descobriram onde ficava a entrada da garagem. Lá também havia uma portaria, mas nenhum funcionário para abrir os portões para os motoristas. Enfim, nem tudo é perfeito.
No meio do caminho, foram interrompidos por dois rapazes que foram cumprimentá-los. Disseram que os conheciam da festa e, por conta dela, puxaram assunto:
-- Maurício e Rodrigo, quando vocês pretendem organizar outra reunião daquelas?
-- A hora que vocês quiserem, é só combinar. – respondeu Maurício.
-- Então, está bem. Durante a semana, nós combinamos tudo. Está certo?
-- Pra nós, está ótimo. – respondeu novamente Maurício.
-- Sem problemas. – reforçou Rodrigo.
-- Então. A gente se vê depois. Até logo.
-- Até logo. – responderam Maurício e Rodrigo.
E assim, os dois rapazes retornaram para o apartamento. Quando chegaram, comentaram com Lindolfo, que dois conhecidos perguntaram se haveria mais festas. Foi então que Lindolfo disse que eles podiam combinar tudo com os rapazes. Espantados com a resposta, perguntaram:
-- E você? Não vai?
-- Mas é claro que vou.
Diante da resposta, os dois sentiram-se aliviados.

Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Para se Viver um Grande Amor - Capítulo 20

Certo dia, Jovelina e Mercedes perguntaram a Letícia, quando seria a data de seu matrimônio.
As duas mulheres, dizendo que já estava na hora da moça se casar, comentaram que depois de tudo o que ela havia passado, nada mais justo do que isto.
Marli concordou. Disse que o casamento seria um recomeço, um jeito de abandonar de lembranças tão tristes, e iniciar uma nova fase em sua vida.
Karina, chegou a dizer-lhe algo parecido.
A certa altura, Flávio comentou que estava pensando em se casar. Dizendo que já estavam noivos há muito tempo, afirmou que era tempo de se casar. Comentou que estava guardando dinheiro, e que pretendia se mudar para um apartamento maior do que aquele em que estava morando. Meio sem jeito, comentou que gostaria que ela o acompanhasse na mudança.
Letícia não pareceu surpresa com a proposta.
Flávio continuou comentando sobre seus planos para a moça.
Letícia ouvia tudo atentamente.
Foi quando o moço perguntou-lhe:
- Vamos marcar a data de nosso casamento?
Letícia gaguejando, respondeu que sim.
Com isto, o casal comentou com Olívia e Gilberto que iriam se casar.
Juntos, participaram a novidade também para Karina.
A mulher ficou exultante com a novidade.
Humberto também parabenizou a moça e Karina.
E assim, a realização do casamento de Letícia e Flávio foi questão de tempo...
 
Quanto a viagem ofertada por Flávio, Cecília e Alessandro apreciaram muito o presente do moço.
Realizaram uma excursão de dezesseis dias pelo nordeste.
Conheceram um pouco do estado da Bahia, do Maranhão, Ceará, Pernambuco, Piauí, Sergipe e Paraíba.
Deslumbraram-se com praias maravilhosas, construções históricas como igrejas, fortes, construções coloniais, como o Pelourinho, o Mercado Modelo, o Elevador Lacerda – ligando a cidade alta a cidade baixa, em Salvador. Comeram acarajé, curtiram um carnaval fora de época, com desfile de blocos pelas ruas do nordeste, usando abadás.
Conheceram os Lençóis Maranhenses, a cidade histórica de São Luiz, no Maranhão.
Aproveitaram para tirar muitas fotos.
Voltaram felizes e bronzeados. Também tinham muita história para contar.
Depois retornado suas rotinas, voltaram a trabalhar...

Letícia por sua vez, apresentou seu projeto a seu superior na repartição, e sua proposta foi aceita.
Quando a moça contou isto para Karina, seu noivo, Humberto, Olívia e Gilberto -, foi uma festa só.
Flávio também estava feliz em ser sócio do escritório.
Por conta disto, saíram para comemorar.
Com efeito, começaram a adquirir enxoval, comprando roupas de cama – lençóis, edredons, cobertores, fronhas. Compraram travesseiros, roupas de mesa, de banho, além de móveis. Flávio e Letícia escolheram juntos, um imóvel para comprar.
Olívia e Karina também ajudaram no que podiam.
A mãe de Flávio não cabia em si de contente. Dizia a todo momento para o marido, que não acreditava que seus filhos estavam encaminhados. Comentou que estava feliz com o casamento de Cecília e Alessandro, e que estava feliz com os preparativos de um novo casamento. Disse que não via a hora de ver o filho casado.
Quando finalmente o casamento se realizou, Olívia estava exultante.
Tanto que comentou que fazia questão de conduzi-lo até o altar.
No início, Flávio e Letícia acharam a história engraçada. Gilberto também não entendeu a exigência.
Porém, depois de algum tempo, percebendo que Olívia não estava brincando, Flávio concordou com a idéia inicialmente estapafúrdia.
Quando o casamento se deu, foi uma cena bonita ver o rapaz ser conduzido por sua mãe até o altar.
Olívia estava radiante com um vestido salmão com echarpe e bordados.
Neste momento, já estavam no altar Karina e Humberto – padrinhos de Letícia – e Alessandro e Cecília – padrinhos de Flávio.
Depois de algum tempo, Letícia foi conduzida por Gilberto até o altar.
A moça usava um vestido tomara-que-caia com saia rodada até o tornozelo. Cabelos semi-presos cacheados, coroa com flores naturais, um véu até a cintura, que cobria o rosto da noiva. No colo, um colar de strass com várias voltas. Estava impecável.
Ao som de uma música clássica, a moça foi conduzida ao altar.
Como enfeites, lindas rosas vermelhas.
Durante a cerimônia, o padre comentou sobre o encontro entre os dois, dizendo que o que Deus uniu, o homem não poderia separar.
A troca de alianças foi um momento sublime.
Flávio esqueceu o que deveria falar, e começou a dizer de improviso que prometia que nunca mais iria ser ausente, que nunca a deixaria, e que jamais lhe seria infiel. Acrescentou ainda, que este casamento era a coisa mais importante no momento, e que estava disposto a fazer deste momento o mais importante de sua vida.
Ao término das palavras, o moço foi aplaudido por todos.
Com efeito, todas as pessoas que foram convidadas para o casamento de Alessandro e Cecília, participaram da cerimônia de matrimônio de Letícia e Flávio. Também enviaram lindos presentes para a moça.
Letícia nervosa e emocionada, conseguiu repetir com dificuldade as palavras ditas pelo padre.
Dias antes do casamento, Otávio procurou os noivos para conversar.
Dizendo que estava prestes a se casar com a filha de um industrial, argumentou que desejava toda a felicidade do mundo ao casal.
Letícia e Flávio agradeceram as palavras gentis.
Contudo, não estava convencidos de que as mesmas eram sinceras.
Otávio parece que percebendo isto, decidiu não comparecer ao casamento.
Nisto, o beijo do casal Letícia e Flávio foi marcante. O moço levantou o véu que cobria o rosto da noiva e beijou-a.
Na saída da igreja o casal foi cercado pelos convidados e recebidos com uma chuva de arroz. Tudo para que tivessem prosperidade.
Foram beijos e abraços distribuídos para todos os convidados.
Por fim, a noiva jogou o buquê.
Quem pegou o arranjo foi sua mãe Karina.
Gilberto e Olívia brincaram dizendo que um novo casamento aconteceria em breve.
Karina desconversou dizendo que estava muito cedo para pensar nisto.
Humberto comentou que a situação era bem interessante, e que não era má idéia pensar no assunto.
Letícia comentou que já estava na hora dela arrumar uma pessoa. Preocupada com o fato de sua mãe ficar sozinha, disse que já estava na hora dela pensar em se casar novamente.
Cecília comentou que ela ainda era moça, bonitona e que não iriam faltar pretendentes caso Humberto não quisesse se casar.
Olívia chamou a atenção da filha.
Cecília porém, retrucou dizendo que não estava fazendo nada de mal.
Humberto respondeu então que não havia necessidade de terceiros se habilitarem não.
Alessandro começou a cantar:
- Com quem será? Com quem será que Dona Karina vai casar? Vai depender. Vai depender do Humberto aceitar.
Olívia pediu então para que o genro parasse de cantar.
- Opa, melhor parar por aqui!
Todos riram.
Flávio conduziu Letícia até a limosine.
O casal seguiu com o carro enfeitado até o buffett.
Nisto, o salão repleto de orquídeas e brincos de princesa, estava cheio de cor.
Unido, o casal valsou, comeu pãezinhos com patês e frios diversos, ceou a paella preparada. Flávio e Letícia dançaram um “sambinha de uma nota só” a pedido de Cecília e Alessandro, que também aproveitaram para sambar:

“Samba de Uma Nota Só

Eis aqui este sambinha feito numa nota só.
Outras notas vão entrar, mas a base é uma só.
Esta outra é conseqüência do que acabo de dizer.
Como eu sou a conseqüência inevitável de você.

Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada,
Ou quase nada.
Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada,
Não deu em nada.

E voltei pra minha nota como eu volto pra você.
Vou contar com uma nota como eu gosto de você.
E quem quer todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si, dó.
Fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só.

(Composição: Tom Jobim/Newton Mendonça)”

Letícia e Flávio chegaram a retrucar dizendo a música era bossa nova.
Cecília e Alessandro depois de vê-los dançando, pediram para a banda cantar “O Samba da Minha Terra”.
No que foram prontamente atendidos:

“O samba da minha terra
Deixa a gente mole

Quando se canta, todo mundo bole
Quando se canta, todo mundo bole
Quando se canta, tudo mundo bole...

Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou é doente do pé

Eu nasci com o samba
No samba me criei
E do danado do samba
Eu nunca me separei...

O samba da minha terra
Deixa a gente mole

Quando se canta, todo mundo bole
Quando se canta, todo mundo bole
Quando se canta, todo mundo bole...

(Composição: João Gilberto)”

A música e a alegria correram solta por toda a madrugada.
Brincando, todos começaram a comentar sobre os preparativos do casamento de Karina e Humberto.
Karina retrucava a todo o momento que não estava se casando.
Jovelina, Mercedes e Marli comentaram felizes que queriam ser convidadas para o casório. Brincando disseram que já se sentiam parte da família.
A sós, Flávio e Letícia ficaram sozinhos na entrada do buffet. Estavam felizes.
Olhando a lua, começaram a fazer planos.
Queriam recuperar o tempo perdido.
Mais tarde, despedindo-se de todos, Flávio e Letícia entraram na limosine enfeitada e cheia de latas.
Todos desejaram felicidades ao novo casal.
Os noivos acenaram para todos, de dentro do carro e partiram.
Olívia comentou com Gilberto que eles estavam destinados um ao outro.
Letícia e Flávio foram então construir sua felicidade...

Olívia finalmente pagou a promessa que fizera quando Flávio estava convalescente...
Finalizando, Cecília conseguiu descobrir onde estava localizado um lugar muito parecido com o que Flávio sonhara.
Interessado em descobrir onde ficava o local, o moço acabou depois, levando a esposa Letícia para lá.
Foi então que ela comentou que sonhou inúmeras vezes com aquele lugar.
Flávio ficou intrigado com este fato. Tanto que pediu para ela descrever seus sonhos.
Quando a moça lhe relatou que havia tido sonhos muito parecidos com as projeções astrais de Flávio, o moço ficou exultante.
Pensava: “Então não era apenas um sonho. Isto tudo aconteceu mesmo!”
Explicando que também havia sonhado com aquele lugar, Flávio revelou que seus sonhos eram idênticos aos de Letícia.
A moça por sua vez, custou a acreditar nas palavras de seu marido.
Cecília, que acompanhava tudo a distância, começou a chorar. Dizendo que se lembrava de ficar a correr por aquele lugar, causou espanto em Flávio que argumentou:
- Como você pode se lembrar disto, se até outro dia você não se lembrava?
Cecília comentou que estava se recordando do lugar somente naquele momento.
Mais tarde, Gilberto se lembrou havia levado os filhos para passearem no lugar, já há muito tempo.
Durante o passeio no jardim, Flávio contou que não se tratava de uma simples coincidência mais sim, de uma viagem astral.
Letícia permanecia incrédula.
Flávio então explicou-lhe tudo o que havia pesquisado sobre o assunto, e revelando mais detalhes sobre suas projeções, acabou convencendo a moça de que era tudo verdade.
Letícia abraçou o então marido, emocionada.
A partir deste momento, aquele passou a ser o local de muitos dos encontros do casal.
Gilberto e Olívia também passaram a visitar o parque sempre que podiam.
Adoravam ver os filhos unidos a seus respectivos marido e esposa.
Contemplavam a tarde amarelada, o céu azul celeste, os matizes de cores da bela tarde.
A vida...

Luciana Celestino dos Santos
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