Poesias

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

COISAS DO BRASIL PARTE 3 – REGIÃO SUL CAPÍTULO 13

Comentando sobre o Umbu, os turistas conheceram a seguinte lenda: 
O Umbu é uma árvore grande e folhuda que cresce no pampa. 
Muitas vezes é solitária, erguendo-se única no descampado e atrai os campeiros, os tropeiros, os carreteiros que fazem pouso sob sua proteção. 
O tronco do Umbu é muito grosso, as raízes fora da terra são grandes, mas ninguém usa a madeira da árvore - não serve para nada, mesmo. 
É farelenta, quebradiça, parece feita de uma casca em cima da outra. 
Por quê? 
Pois não vê que quando Deus Nosso Senhor criou o mundo, ao fazer as árvores, perguntava a cada uma delas o que queria na terra? 
A laranjeira, o pessegueiro, a macieira, a pereira e assim por diante, quiseram frutos deliciosos. 
O pau-ferro, o angico, o ipê, o açoita-cavalo, a guajuvira, pediram madeira forte. 
-- E tu, Umbu, queres também frutos doces e madeira forte? 
-- Nada, Senhor. - respondeu o Umbu. - Eu quero apenas folhas largas para as sesteadas dos gaúchos e uma madeira tão fraca que se quebre ao menor esforço. 
-- A sombra, Eu compreendo - disse o Senhor. - Mas porque a madeira fraca? 
-- Porque eu não quero que algum dia façam dos meus braços, a cruz para o martírio de um justo. 
E Deus Nosso Senhor, que teve o filho crucificado, atendeu o pedido do Umbu.

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 3 – REGIÃO SUL CAPÍTULO 12

Com isso, passou-se a falar do Rio dos Pássaros. 
Ouvia-se lendas inesquecíveis sobre os sete povos e sobre o próprio município. 
Seu mundo interior povoava-se de figuras e dimensões encantadas. 
Dentre elas, destacava sempre uma em especial: a do nascimento do Rio Uruguai, numa das muitas confrontações havidas entre o diabo vermelho dos índios, - o Anhaguapitã, e São Pedro. 
Certo dia o diabo, cansado de caminhar pelas matas, porque, nesse tempo, tudo isto aqui era só mato a perder de vista, o caaguaçu, o mato grande, de água, não existindo nem as lagoas, nem o jacuí, nem o ibicuí; decidiu tirar uma sesta para refazer a as forças e continuar sua caçada de almas malvadas. 
E tratou de se espichar num tapete de guanxumas alta. 
Caiu bem ao pé de uma figueira carregadinha de frutos maduros. 
Nesses tempos, povoava essas matarias que se estendiam longe, a fazer limites com Santa Catarina e as terras do rei da Espanha, uma raça de passarinhos pequenos e cantadores, chamada uru. 
Naquele dia, depois de saborearem também os figuinhos roxos e suculentos, resolveram dar graças a Deus, cantando o que era uma lindeza de se ouvir. 
Eram milhares de milhares, estendidos desde de a linha, serranias e pinheiras das alturas de Lajes, ao norte, ali por onde hoje se levanta Bom Jesus e Vacaria, até aqui por estas bandas rasas, no extremo sudoeste, por onde se alargam os pampas de Santana Velha e da Barra do Quaraí. 
O diabo, que tem um sono de pedra e ninguém consegue acordar quando está dormindo, naquela tarde não pode deixar de ouvir a orquestra dos passarinhos. 
Sua irritação era tamanha, que resolveu dar um sumiço nesses bajuladores do Velhinho lá de cima... Unindo o gesto a palavra, encheu as bochechas vento, ficando com a cara em brasa, de tanto fazer força. 
Depois que tinha botado dentro da boca a maior quantidade de furacão, soprou com tanta fúria quanto podia, virando para o lado de onde lhe parecia provir o som. 
A passarada tratou de se cambiar, atirando-se espaço a fora, num movimento único. 
Depois pensaram que se o diabo não queria que eles cantassem no fofo dos galhos e ramagens, então cantariam no ar mesmo, fora de seu alcance. 
Lá em riba recomeçaram seu gorjeio, ainda mais bonito, mais alegre do que antes. 
Furioso, o diabo resolveu matar todos de uma vez só. 
Ouviu-se uma explosão, era como um tiro de canhão. 
E um horrível fedor de enxofre se propalou, na terra e no ar, deixando a bicharada tonta de cair.
Com aquele canhonaço que se ouviu por milhares de léguas ao redor, o velhinho São Pedro, que também andava cá na terra, desconfiou que aquilo não podia ser coisa boa. 
Nisso o relampejo do sol, sobre as asas dos milhares de passarinhos que começavam a cair do céu a imitar uma chuva transparente, daquelas do tipo casamento da raposa, e alertou o santo de vez. 
Levantando as mãos para o céu, pediu a benção do Espírito Santo – que também era uma ave, pois sempre aparece disfarçado de pombinha branca – numa tentativa de salvar os bichinhos da sanha malvada que os estava exterminado aos milhares. 
Ergueu a mão direita na direção da passarada que caía, e a medida que o poder mágico de seus dedos ia atingindo os uruzinhos, foi acontecendo um milagre. 
As avezinhas que ainda tinham qualquer sopro de vida no corpo, foram se transformando em gota d'água, e as que já tinham morrido, se despencaram do alto para o chão, mudadas em pequenas pedras redondas e chatas, hoje conhecidas pelo nome de chanteiras, e que lembra pelo formato um passarinho de assas abertas. 
O volume de água foi tanto, a prosseguir pelo chão, por vales, matarias e campos, que o limite seco que separava o Rio Grande, de Santa Catarina, e da Argentina, se tornou num rio enorme. 
Foi assim que nasceu o Rio do Uruguai, o Rio Uru-aa-i, rio dos passarinhos, outros chamam de “rio dos pássaros pintados”.

DICIONÁRIO:

caaguaçu
substantivo masculino
ANGIOSPERMAS
erva ( Eriocaulon sellowianum ) da fam. das eriocauláceas, com roseta basal de folhas lanceoladas e capítulos globosos, com flores esbranquiçadas, sobre longos pedúnculos arqueados, nativa do Brasil (GO, MG, SP, PR) e cultivada como ornamental; caá-açu, caaçu.

Jacuí é uma palavra indígena que define uma ave, o mesmo que aracuã. O nome científico do jacuí é: Ortalis Canicollis Pantanalensis.

"Ibicuí" é um termo de origem tupi que significa "água do pó da terra", através da junção dos termos yby ("terra"), ku'i ("pó") e 'y ("água").

Guanxumas
Significado de Guanxumas    
[Botânica] Plural de guanxuma, que é uma planta da família da Malvaceae e do gênero Sidastrum. A guanxuma é usada como chá, que dizem que alivia tosses e febres.

chanteira s. f.
(1) Canteira piçarrosa donde se tiram os chantos ou chantas.
(2) Cada uma das peças de madeira entre as que gira o eixo do carro. Treitoira.
(3) Mouta de centeio, favas, etc.
[de chanto + -eira]

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 3 – REGIÃO SUL CAPÍTULO 11

Ao falar sobre a Lagoa Vermelha, o narrador contou que: 
A primeira tentativa dos padres jesuítas, que resultou na fundação de Dezoito Povos Missioneiros no Rio Grande do Sul, deu em nada. 
Os bandeirantes de Piratininga, que haviam arrasado as reduções do Guairá caçando e escravizando índios, para a escravidão das lavouras de cana-de-açúcar de São Paulo e Rio de Janeiro, quando souberam que os padres tinham vindo mais para o sul e erguido suas aldeias no Tape, vieram aqui fazer o que sabiam fazer. 
Assim e aos poucos, os padres tiveram que refluir para o oeste, fazendo agora na volta o mesmo caminho que tinham feito na vinda. 
E nessa fuga tratavam de levar consigo tudo o que podiam carregar. 
O que não podiam, queimavam ou enterravam. 
Nisso, casas, plantações e até igrejas foram incendiadas, para que nada ficasse ao emboaba agressor. 
Pois diz-que numa dessas, avançava pelo Planalto, no rumo da Serra, uma carreta carregada de ouro e prata, fugindo das Missões.
Ali vinha a alfaia das igrejas, candelabros, castiçais, moedas, ouro em pó, um verdadeiro tesouro, cujo peso, faziam os bois peludearem. 
Com a carreta, alguns índios e padres jesuítas e atrás deles, sedentos de sangue e ouro, os bandeirantes. Ao chegarem às margens de uma lagoa, não puderam mais. 
Desuniram os bois e atiraram a carreta com toda a sua preciosa carga na lagoa, muito profunda. 
Foi então que os padres mataram os índios carreteiros e atiraram os corpos n'água, para que não contassem a ninguém onde estava o tesouro. 
Com o sangue dos mortos, a lagoa ficou vermelha. 
E lá está, até hoje. 
Ao seu redor, cresceu uma bela cidade, que tomou seu nome - Lagoa Vermelha. 
E cada um dos seus moradores que passa na beira das águas coloradas, lembra que ali ninguém se banha, nem pesca, e segundo a tradição, a lagoa não tem fundo. 
E nas secas mais fortes e nas chuvaradas mais brabas, o nível da lagoa é sempre o mesmo.

DICIONÁRIO:
1. Peludear
Significado de Peludear  
Forcejar; atolar o automóvel no barro, tirar um peludo (provavelmente vem do tatu peludo, bicho que faz a toca bem funda).
No retorno da pescaria, peludeamos duas vezes, por causa da chuvarada.

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 3 – REGIÃO SUL CAPÍTULO 10

 A seguir o narrador passou a contar a ‘Lenda do Caverá’.
O Caverá é uma região na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul, ouriçada de cerros, que se estende entre Rosário do Sul e Alegrete. 
Na Revolução de 1923, entre os Maragatos (os revolucionários) e os Chimangos (os legalistas) o Caverá foi o santuário do caudilho maragato Honório Lemes, justamente apelidado "O Leão do Caverá". 
Diz a lenda que a região, no passado, era território de uma tribo dos Minuanos, índios bravios dos campos, ao contrário dos Tapes e Guaranis, gente mais do mato. 
Entre esses Minuanos, destacava-se a figura de Camaco, guerreiro forte e altivo, mas vivendo uma paixão não correspondida por Ponaim, a princesinha da tribo, que só amava a própria beleza... 
Os melhores frutos de suas caçadas, os mais valiosos troféus de seus combates, Camaco vinha depositar aos pés de Ponaim, sem conseguir dela qualquer demonstração de amor. 
Um dia, achando que lhe dava uma tarefa impossível, Ponaim disse que só se casaria com Camaco se ele trouxesse a pele do Cervo Berá, para forrar o leito do casamento. 
O Cervo Berá era um bicho encantado, com o pelo brilhante - daí o seu nome. 
O mato era dele: Caa-Berá, Caaverá, Caverá, finalmente. 
Então Camaco resolveu caçar o cervo encantado. 
Montando o seu melhor cavalo, armado com vários pares de boleadeiras, saiu a restrear, dizendo que só voltaria depois de caçar e courear o Cervo Berá. 
Depois de muitas luas, num fim de tarde, ele avistou a caça tão procurada na aba do cerro. 
O cervo estava parado, cabeça erguida, desafiador, brilhando contra a luz do sol morrente. 
Sem medo, Camaco taloneou o cavalo, desprendeu da cintura um par de boleadeiras e fez as pedras zunirem, arrodeando por cima da cabeça. 
Então, no justo momento em que o Cervo Berá deu um salto para a frente quando o guerreiro atirou as Três Marias, houve um grande estouro no cerro, e uma cerração muito forte tapou tudo. 
Durante três dias e três noites, os outros índios campearam Camaco e seu cavalo, mas só acharam uma grande caverna que tinha se rasgado na pedra dura do cerro e por onde, quem sabe, Camaco e seu cavalo, tinham entrado a galope atrás do Cervo Berá para nunca mais voltar. 

DICIONÁRIO:
Significado de Taloneou
Taloneou vem do verbo talonear.
Significado de talonear
[Regionalismo: Rio Grande do Sul] Dar com a tala ou chicote em; chicotear.

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 3 – REGIÃO SUL CAPÍTULO 9

Quanto ao Boi Vaquim: 
Trata-se de um ser místico do Rio Grande do Sul.3 
É um boi alado, com asas e guampas de ouro, levantadas como as vacas, portanto meio avacado. 
Mete medo aos campeiros, porque chispa fogo nas pontas das guampas e tem os olhos de diamante. 
É preciso muita coragem para laçá-lo, braço forte, cavalo bom de pata e de rédeas. 
Supõe Contreiras Rodrigues que o mito tivesse vindo do norte, através das tropas de Sorocaba. 

3 Descrito pelo historiador Contreiras Rodrigues.

DICIONÁRIO:
guampa - substantivo feminino BRASILEIRISMO•BRASIL
1. ANATOMIA ZOOLÓGICA
m.q. CORNO ('apêndice ósseo').
2. corno, chifre talhado em forma de copo ou vasilha para líquidos; guampo.

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

COISAS DO BRASIL PARTE 3 – REGIÃO SUL CAPÍTULO 8

Em seguida, o narrador passou a falar sobre a ‘Lenda da Salamanca do Jarau’: 
No tempo dos padres jesuítas, existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. 
Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na praça principal da aldeia. 
Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. 
Foi então, que levantou-se, assoleado, e foi até a beira da lagoa refrescar-se. 
Levava consigo uma guampa, que usava como copo. 
Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante, e qual não foi a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. 
Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá, - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens, e arrastava todos para o inferno. 
Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada, jamais tocada por homem. 
Aquele pelo qual se apaixonasse, seria feliz para sempre. 
Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa, e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. 
Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco para que chegasse a noite. 
Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. 
Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. 
Ora, vinho só o da Santa Missa. 
Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite. 
No outro dia, o sacristão não prestava para nada. 
Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. 
E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram, e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. 
A princesa moura transformou-se em Teiniaguá, e fugiu para as barrancas do rio Uruguai. 
Mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor, foi preso e acorrentado. 
Como o crime era horrível – contra Deus e a Igreja! – foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado. 
No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. 
Então, lá das barrancas do Rio Uruguai, a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. 
Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, uns valos enormes, rasgando tudo. 
Por um desses valos, ela finalmente chegou à igreja, bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. 
O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo.
Houve fogo, fumaça e enxofre, e tudo afundou, e tudo desapareceu de vista. 
E quando as coisas clarearam, a Teiniaguá tinha libertado o sacristão, e voltado com ele para as barrancas do Rio Uruguai. 
Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá, e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. 
Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. 
E lá foram morar, os dois. 
Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. 
Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. 
Quem tivesse coragem de entrar lá, passasse sete provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado, com sorte no amor, e com dinheiro para o resto da vida. 
Na Salamanca do Jarau, a Teiniaguá e o sacristão, se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul. 
Ah, ali vive também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. 
Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa das cabeças do Cerro, e pula uma elevação para outra. 
Muita gente viu.

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

COISAS DO BRASIL PARTE 3 – REGIÃO SUL CAPÍTULO 7

Quanto a lenda do Sepé Tiaraju, o narrador iniciou comentando que em 1750, foi decidido pelo Tratado de Madri, que a Espanha trocaria com Portugal, sua possessão conhecida por Os Sete Povos das Missões, pela Colônia do Sacramento, que pertencia aos portugueses. 
Milhares de índios guarani, catequizados pelos jesuítas espanhóis, habitavam as Missões. 
Conforme o tratado, todos os habitantes das Missões tinham de deixar suas terras, e se mudar para o território pertencente aos espanhóis. 
Acontece que o prazo para a mudança era muito curto, e os índios, que já estavam descontentes, pois não iam ter tempo de arrumar suas coisas. 
Os jesuítas interferiram, pedindo um prazo maior, e aconselharam aos índios que se mantivessem obedientes e tranqüilos. 
Assim, muito embora os jesuítas não tivessem conseguido mais tempo, como pretendiam, os índios pareciam estar conformados. 
De repente, no entanto, eles se revoltaram, e isto, por causa de Sepé Tiaraju. 
Sepé era um índio muito forte e admirado por todos, sobretudo pelas vitórias que acumulara nos jogos da tribo. 
Certa manhã, Jussara, sua namorada, contou-lhe um sonho que tivera, onde um anjo lhe dizia que haveria grandes sofrimentos para seu povo. 
Padre Balda, um jesuíta muito estimado pelos índios, ouviu a conversa. 
Procurou acalmá-los, mas Sepé ficou realmente preocupado. 
Não sem razão: as tropas espanholas e portuguesas estavam por perto, prontas a agir, caso as ordens não fossem cumpridas. 
Diante disso, Padre Balda falou: 
-- De nada adiantará reagirmos, meus filhos. Apenas daremos às tropas motivo para nos atacar. Vamos em paz. Construiremos novas cidades e plantaremos novas lavouras. 
Mas Sepé, ao ouvir as palavras do sacerdote, pediu perdão ao jesuíta, dizendo que, pela primeira vez, era obrigado a lhe desobedecer. 
Não permitiria que seu povo entregasse aos portugueses, o fruto de tantos anos de trabalho. 
Dali não sairiam. 
E prometeu que, no dia seguinte, acompanhado de quinhentos homens, atacaria o inimigo. 
Assim, de nada adiantou o esforço do padre para convencer o valente guerreiro. 
No dia seguinte, ainda de madrugada, eles partiram a cavalo, ao encontro do inimigo. 
Deu-se o combate entre os índios e os soldados portugueses. 
Uma luta rápida e decisiva. 
Pouco valeram a coragem e o desprendimento de Sepé e sua gente, diante do número e das armas do inimigo. 
Os atacantes foram quase exterminados. 
Os poucos sobreviventes fugiram, e Sepé caiu prisioneiro. 
Quando Jussara foi avisada, desesperou-se. 
O padre procurou consolá-la: 
-- Sei quem é Sepé, minha filha. Se caiu prisioneiro, logo se libertará. Não se entristeça, que o veremos mais depressa do que pensamos. 
No acampamento português, Sepé era arrastado à presença do general lusitano. 
Mandaram o índio beijar a mão do general, mas ele recusou-se: 
-- Ninguém me obriga a beijar a mão de outro homem. Depois, sou eu e não ele, o dono destas terras! 
O general português explodiu uma gargalhada: 
-- Dono? Tu és apenas um pobre bárbaro, mais nada. 
Ao ouvir tais palavras, Sepé respondeu, com os olhos incendiados de raiva: 
-- Bárbaro? Você é mais bárbaro do que eu, pois pretende tirar a terra de seus legítimos proprietários, enquanto eu luto em defesa de meu povo! 
Quando o chefe lusitano viu que, por mal, não conseguiria conquistar o índio, fingiu-se de amigo e lhe ofereceu fumo. 
Sepé recusou, dizendo que possuía fumo de melhor qualidade do que aquele. 
O português pretendia, realmente, conseguir de Sepé a revelação do lugar onde estavam escondidos os cavalos de seus guerreiros, para que pudesse apossar-se deles, deixando os índios sem meios para atacar. 
Assim, ele disse a Sepé: 
-- Se me contares onde estão os teus cavalos, terás imediatamente a liberdade. 
Sepé assumiu um ar orgulhoso e respondeu: 
-- Não preciso esmolar liberdade: se eu quisesse libertar-me, não haveria forças capazes de me impedir. 
Quem ouviu, não pode deixar de caçoar. 
Nisso, o general português perguntou-lhe, sarcasticamente: 
-- Então, não temos forças capazes de te impedir a fuga? Essa é muito boa! E o que farias para sair daqui? 
Sepé olhou firmemente o lusitano e exclamou: 
-- Isto! Rápido como o raio, o índio escapou dos soldados que faziam roda e, montando no primeiro cavalo que encontrou, saiu em disparada. 
Quando os portugueses perceberam o que havia acontecido, ele já desaparecera numa nuvem de pó. 
Nas Missões, o povo vibrou de alegria. 
Padre Balda abraçou-o, comovido: 
-- Eu sabia que você voltaria! Tinha certeza! Meu coração não me enganou! 
Foi então que Sepé revelou que agora odiava mais do que nunca o inimigo. 
A humilhação pela qual passara exigia vingança. 
O jesuíta percebendo a agitação que dominava o índio, lhe pediu que descansasse: 
-- Algumas horas de repouso acalmarão sua revolta. Vá para a rede e durma. Depois, seus pensamentos serão outros. 
Sepé obedeceu. 
Exausto como estava, o ódio logo cedeu ao sono...
Alguns dias depois, como os índios não haviam deixado as Missões e o prazo se esgotara, as tropas portuguesas aguardavam a chegada das tropas espanholas, para, juntas, expulsarem os desobedientes. 
Foi quando um soldado português entrou alvoroçado em seu acampamento, levando uma seta. 
Tinha sido atirada por Sepé e trazia, espetada na ponta, uma mensagem de desafio. 
Foi mostrada ao chefe lusitano, que ficou furioso. 
Os portugueses não viam a hora de atacar, mas tinham ordem de aguardar as tropas espanholas. 
Com isso, depois de muita espera, veio uma comunicação, informando que os espanhóis ainda demorariam algum tempo para se preparar. 
O chefe português ficou ainda mais furioso, mas não teve outro remédio, senão mandar que seus soldados voltassem à fortaleza, onde estavam aquartelados. 
Quando a notícia chegou às Missões, o povo interpretou a retirada do inimigo como uma derrota, e foi uma alegria imensa. 
Um mês se passou. 
Tudo retomara ao que era antes. 
Os índios e os jesuítas faziam calmamente seus trabalhos rotineiros. 
Era a paz, a tranqüilidade... 
Foi quando soou um grito, que mudou completamente a vida daquele povo: 
-- Vamos ser atacados! Vamos ser atacados! 
Era o temido ataque dos brancos. 
E vinham juntos, portugueses e espanhóis. 
Sepé assumiu a chefia de sua gente. 
Os guerreiros corriam, na pressa de se preparar para a guerra. 
Em vão, os jesuítas pediam que não resistissem, para evitar a mortandade. 
Mas, os índios estavam por demais revoltados com a maldade dos brancos. 
Por que queriam tirar-lhes a terra? 
Que mal haviam feito? 
Preferiam morrer a sair da terra onde haviam nascidos e que adoravam. 
Depois de tudo pronto, Sepé despediu-se de Jussara, e partiu com seus guerreiros. 
Seguiu na frente, montado a cavalo, na mão direita a lança provocadora; na cabeça, o cocar de plumas multicores. 
Inteligente, sabia que o inimigo era mais forte. 
Preferiu, pois, a luta de emboscada, o ataque rápido, a surpresa. 
Sepé era visto em toda parte. 
Desdobrava-se. 
Lutava com todas as forças que possuía, mas o inimigo era poderoso. 
Unidos, espanhóis e portugueses atacavam em massa. 
Os índios defendiam-se bravamente. 
Às balas dos atacantes, respondiam com suas flechas. 
Caíam homens dos dois lados. 
Depois, veio o combate corpo a corpo, brancos e índios confundindo-se, no ardor da peleja. 
Ah, o eterno egoísmo dos homens! 
Os portugueses queriam as terras, e não se preocupavam com os sentimentos daquela gente. Recusavam-se a compreender o amor que os índios devotavam ao lugar. 
Queriam que eles saíssem e pronto! 
E o combate continuou. 
Os índios lutavam com um ardor nunca visto. 
Uma coragem que desprezava as possantes armas dos inimigos, deixando-os surpresos. 
Dentre os combatentes, sobressaía-se a figura de Sepé Tiaraju. 
Ele era invencível! 
Lutando como lutava, sem temor, sem a mínima cautela, já era para estar morto. 
Não se cansava. 
Era sempre o mesmo. Foi então que o inimigo percebeu que ele era o coração de seus guerreiros. 
Era sua presença que os animava. 
Resolveu, portanto, concentrar-se nele. 
Aos punhados, os soldados o atacavam, mas nem assim conseguiam vencê-lo. 
Sepé foi rodeado por dez soldados. 
À sua volta, a luta prosseguia. 
O guerreiro enfrentou corajosamente os dez atacantes, mas era demais! 
E enquanto lhes dava combate, um deles conseguiu atingi-lo com a lança. 
Sentindo-se ferido, o índio ainda tentou resistir, agarrando-se ao pescoço do cavalo, mas fugiam-lhe as forças. 
Tudo escureceu. 
Seus braços não suportaram mais e ele caiu no chão, quase morto. 
Um soldado aproximou-se, montado a cavalo, e fitou, por um instante, o valente guerreiro. 
Em seguida, apontando-lhe a arma, atirou. 
Sepé estava morto. 
Deixara de existir, o defensor dos povos das Missões. 
Todos os índios que olharam para o céu, viram um cavaleiro galopando um cavalo de fogo, envolto por uma luz azulada muito bonita. 
Na mão direita, o cavaleiro empunhava a lança. 
Era Sepé, indo ao encontro de Tupã. 
Depois que ele morreu, os índios perderam grande parte da vontade que os fazia enfrentar forças tão superiores. 
Lutavam ainda, porém, sem aquele ardor que sentiam, quando Sepé estava presente e, enfraquecidos, caíam um a um. 
O inimigo, agora com novo ânimo, atacava sem cessar. 
Já não era mais combate, tratava-se de perseguir os poucos índios que ainda estavam de pé. 
Mais algumas cargas e as tropas espanholas e portuguesas, nada mais tinham a fazer. 
Os poucos índios que escaparam, fugiram para o mato. 
Nas campinas, entre os corpos dos indígenas, estavam os inúmeros jesuítas, mortos quando tentavam proteger os nativos. 
Vitoriosas, as tropas marcharam para as Missões. 
Ajudados pelos jesuítas, o povo reuniu o que restou e partiu, de cabeça baixa, em busca de novas terras.
Vencidos. 
Sem esperança. 
Lentamente, a procissão foi deixando a cidade. 
Com olhos tristes, miraram pela última vez suas plantações verdejantes, suas ocas amigas, sua terra! 
Os algodoeiros, à distância, pareciam acenar-lhes com lenços brancos, despedindo-se. 
E se encerrou de forma lendária, um passado nebuloso da história do nosso grandioso Brasil. 
Ao término da narrativa, todos os ouvintes bateram palmas. 
Isso por que, poucos dos que ali estavam ouvindo as maravilhosas narrativas, tinham conhecimento de que o Sul possuía um folclore tão vasto e tão rico. 

Texto retirado de artigos da internet sobre o folclore brasileiro, e de guias de viagens sobre o Brasil.
Luciana Celestino dos Santos
É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.